EXPERIENCIA .B
Monday, March 06, 2006
  EXORCISMO
ARTE artista IMAGINA a imagem NOS CINEMAS o cinema O AUTOR o realizador O GUIONISTA o sonoplasta E O ESPECTADOR a espectadora NA SALA na saída É HOMEM é entrada E É MULHER e é meloso FOGOSO e incêndios É ESTÉTICA uma imagem UM PINTOR uma exposição que se vê de costas voltadas UM QUADRO uma electricidade UMA RELIGIÃO um pequeno NATAL um presidente da república PASSIONAL e uma MASSA atenta e uma MASSA desatenta E UMA MINORIA são diversas minorias ETNIAS de pretos e de BRANCOS e de verdes PAÍSES bandeiras HINOS e sentidos militares ARMADOS COM ARMAS pistolas CANHÕES metralhadoras TANQUES mulheres nuas no capacete POR DENTRO assalto (por dentro) MÃO ARMA E DENTE ou dentes OU DENTES e escrita E ESCRITOR e cuida dos teus dentes como se fossem a tua arma CONFLITO KAFKA um livro de escrita GESTO CRIATIVO ESPALMADO um livro COMPLETO e um livreiro do outro lado NA LIVRARIA na papelaria CANETAS NAS PRATELEIRAS DA PAPELARIA vício-vicio UMA PARTICULARIDADE INÓCUA e a actualidade é uma MERDA uma dispersão UM DESPERDÍCIO é lixo NA BOCA INTERNA DO CANTONEIRO na berma da estrada e da auto-estrada NO TRÁFEGO INTERNACIONAL e aeroporto E OTA e aeroportuário E OTÁRIO e mário PESCADOR NACIONAL uma coisinha bonita VERDURAS FRESCAS com árvores de ambos os lados da estrada NUM BRASIL REGIONAL (com z às vezes) UMA AMAZÓNIA INTEIRA florestal DENSA pesada UMA BÁSCULA basculante QUE BASCULA NA PEDREIRA com mármore por cima COM BETÃO POR CIMA com aço por E CIMENTO na betoneira máquina de lavar roupa dura DO PEDREIRO com mulheres nuas na boca HOMEM de mulheres mini FAMÍLIA NOS PÉS e ciência astrologia (BOA COMO QUALQUER OUTRA) diz-se na televisão E SERÁ VERDADE (se dizem na televisão) OLÁ olá portugal E SIC'ÀS DUAS POR (QUÊ) comenta o comentador A POLITIZAÇÃO É a globalização é DISTÂNCIA um distanciamento UMA VISÃO diário de PÚBLICO vasco não sei o quê MERDA vasco não sei o quê DIVÓRCIO um DIVÓRCIO dois UM E OUTRO é dois UMA CONJUNÇÃO uma conjugação DE MULHER com pénis COM HOMEM com pénis COM UMA MULHER snap snap PORNO o amor é PORNOGRÁFICO no quarto E TAMBÉM É carinhoso (COM CERTEZA COM CERTEZA) desculpe lá mas VEJA O FILME FAMILIAR as fotografias A MÁQUINA FOTOGRÁFICA ALI o olho atento O OLHO OPORTUNO o olho milimétrico E OS MILÍMETROS pequenos OS SEGUNDOS a fracção O DEDO MINDINHO DE TEMPO ALI mas pois claro HOJE sim E HOJE não AMANHÃ amanhã NUM TEMPO FUTURO não NÃO não SEJA RUÃO em ruanda NUM HOTEL com filhos de puta em volta do hotel ruanda A MATAR uma festa DE PUTAS E O VINHO verde E CEGUEIRA NOS COMENSAIS À VOLTA DO MORTO e mais que isto o MATADOR ALMODOVAR no alentejo NA PAISAGEM MORTA à volta AMARELA e à volta COMIGO comigo E CONTIGO e depois é preciso falar É O NOSSO DEVER apesar muito apesar DA ENXAQUECA e depois farmácia DO FARMACÊUTICO com preservativo gratuíto BONITO e preservativo caro FEIO preservatilvico É UM NEGÓCIO SABE um negócio enfim UM CHINÊS DA CHINA só que como os outros EM LISTA DE ESPERA imagino biliões de pessoas em lista de espera SHAKESPEARE A SER ou então a não ser OU SER MAS À ESPERA como todos os outros SHAKESPEARE A LER NO JORNAL AS ACTUALIDADES - a publicidade, esta publicidade

"Sou um gato e estou trancado do lado de fora de uma janela, num oitavo andar. É demasiado alto para arriscar o salto, e portanto, mais não sobra que de andar de um lado para o outro no exíguo espaço do parapeito, conservando intacto o orgulho de felino, olhando em volta com indiferença e arqueando o dorso às vezes, como se houvesse um dono para me apanhar ao colo.

Retiremos o contexto e fique apenas o desespero, que para mim é isto: ser um gato trancado do lado de fora da janela. ficar deitado a apanhar sol, se ainda for de dia, e entristecer quando começa a anoitecer. não me sobram opiniões e o melhor é nem tentar arriscá-las, antes de que tudo mesmo tudo seja um motivo para desesperar mais. O melhor a fazer é escrever papéis para deitar fora; a escrita é um exorcismo, antes de tudo o mais. Tudo morre pela escrita. E depois do desespero, trancado ainda do lado de fora da janela, vejo junto às minhas patas os escombros dos sentidos mortos. Quem não sente, não vê; não ver é o mais refinado instinto de sobrevivência."

Vítor Rui
ARTE artista IMAGINA a imagem NOS CINEMAS o cinema O AUTOR o realizador O GUIONISTA o sonoplasta E O ESPECTADOR a espectadora NA SALA na saída É HOMEM é entrada E É MULHER e é meloso FOGOSO e incêndios É ESTÉTICA uma imagem UM PINTOR uma exposição que se vê de costas voltadas UM QUADRO uma electricidade UMA RELIGIÃO um pequeno NATAL um presidente da república PASSIONAL e uma MASSA atenta e uma MASSA desatenta E UMA MINORIA são diversas minorias ETNIAS de pretos e de BRANCOS e de verdes PAÍSES bandeiras HINOS e sentidos militares ARMADOS COM ARMAS pistolas CANHÕES metralhadoras TANQUES mulheres nuas no capacete POR DENTRO assalto (por dentro) MÃO ARMA E DENTE ou dentes OU DENTES e escrita E ESCRITOR e cuida dos teus dentes como se fossem a tua arma CONFLITO KAFKA um livro de escrita GESTO CRIATIVO ESPALMADO um livro COMPLETO e um livreiro do outro lado NA LIVRARIA na papelaria CANETAS NAS PRATELEIRAS DA PAPELARIA vício-vicio UMA PARTICULARIDADE INÓCUA e a actualidade é uma MERDA uma dispersão UM DESPERDÍCIO é lixo NA BOCA INTERNA DO CANTONEIRO na berma da estrada e da auto-estrada NO TRÁFEGO INTERNACIONAL e aeroporto E OTA e aeroportuário E OTÁRIO e mário PESCADOR NACIONAL uma coisinha bonita VERDURAS FRESCAS com árvores de ambos os lados da estrada NUM BRASIL REGIONAL (com z às vezes) UMA AMAZÓNIA INTEIRA florestal DENSA pesada UMA BÁSCULA basculante QUE BASCULA NA PEDREIRA com mármore por cima COM BETÃO POR CIMA com aço por E CIMENTO na betoneira máquina de lavar roupa dura DO PEDREIRO com mulheres nuas na boca HOMEM de mulheres mini FAMÍLIA NOS PÉS e ciência astrologia (BOA COMO QUALQUER OUTRA) diz-se na televisão E SERÁ VERDADE (se dizem na televisão) OLÁ olá portugal E SIC'ÀS DUAS POR (QUÊ) comenta o comentador A POLITIZAÇÃO É a globalização é DISTÂNCIA um distanciamento UMA VISÃO diário de PÚBLICO vasco não sei o quê MERDA vasco não sei o quê DIVÓRCIO um DIVÓRCIO dois UM E OUTRO é dois UMA CONJUNÇÃO uma conjugação DE MULHER com pénis COM HOMEM com pénis COM UMA MULHER snap snap PORNO o amor é PORNOGRÁFICO no quarto E TAMBÉM É carinhoso (COM CERTEZA COM CERTEZA) desculpe lá mas VEJA O FILME FAMILIAR as fotografias A MÁQUINA FOTOGRÁFICA ALI o olho atento O OLHO OPORTUNO o olho milimétrico E OS MILÍMETROS pequenos OS SEGUNDOS a fracção O DEDO MINDINHO DE TEMPO ALI mas pois claro HOJE sim E HOJE não AMANHÃ amanhã NUM TEMPO FUTURO não NÃO não SEJA RUÃO em ruanda NUM HOTEL com filhos de puta em volta do hotel ruanda A MATAR uma festa DE PUTAS E O VINHO verde E CEGUEIRA NOS COMENSAIS À VOLTA DO MORTO e mais que isto o MATADOR ALMODOVAR no alentejo NA PAISAGEM MORTA à volta AMARELA e à volta COMIGO comigo E CONTIGO e depois é preciso falar É O NOSSO DEVER apesar muito apesar DA ENXAQUECA e depois farmácia DO FARMACÊUTICO com preservativo gratuíto BONITO e preservativo caro FEIO preservatilvico É UM NEGÓCIO SABE um negócio enfim UM CHINÊS DA CHINA só que como os outros EM LISTA DE ESPERA imagino biliões de pessoas em lista de espera SHAKESPEARE A SER ou então a não ser OU SER MAS À ESPERA como todos os outros SHAKESPEARE A LER NO JORNAL AS ACTUALIDADES - a publicidade, esta publicidade
 
Sunday, March 05, 2006
  REGRESSO MAIS UM
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bem, voltemos a isto. com regularidade. gostaria de dizer que ter um blog me confere um estatuto muito bonito entre os meus pares, espraiando um dos instintos que toda a gente partilha: a necessidade de opinar. porém, salvo pelos óscares e pela falta de dinheiro que me tem afectado desde que o sócrates tomou o poder, não encontrei nada realmente estimulante no cardápio dos assuntos - não que os óscares o sejam, mas o sócrates sim. aliás: não o fosse, e não estaria na boca de tanta gente; e sempre que falta conversa, nada melhor que ir ao bolso do governo. o povão poderia dizer: "não consegues vencê-los, diz mal deles".
será que como eu toda a gente ouve dizer que isto só está bons para aqueles gatunos? e que o último a sair que feche a porta? eu sim. oiço dizer aqueles gajos são uns hipócritas, quem paga as crises são sempre os mesmos, e aqueles gajos querem-nos condenar a todos a viver debaixo da ponte. não deixa de ser verdade - e há tanta porcaria nos lá de cima. é pena no entanto que a verbosidade destes bardos de taberna não seja, enfim, do mais eloquente; nem tenha visibilidade no peso das opiniões. mas tem pelo menos os condão de afectar as classes média e média baixa (à alta ninguém tira o ferrarizito...), o que significa que agora já ninguém vai na cantiga sim, pois, é a economia. que é que nos resta? a contra informação; e o teleponto do nosso querido sócrates, que não ajuda os necessitados, mas que pelo menos começa todos os discursos dizendo: "muitos pretendem dizer que nós isto. não. nós isto não. o que nós bla bla bla...". não enche a barriga, mas. ah: e a caixa dos fósforos; não esquecer...


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Saturday, February 11, 2006
  O ABSURDO MAOMÉ
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Julgo que o post não pode ser mais evidente: quero aproveitar a manchete do Independente de ontem e juntar-me à mensagem

EU TAMBÉM SOU DINAMARQUÊS.

Começa a chatear-me a cobardia subliminar de alguns membros da nossa escol, desde Freitas do Amaral até ao senhor engenheiro Ângelo Correia. Não seria absurdo que eu caisse de paraquedas numa das principais avenidas de Teerão, com duas bailarinas de striptease? Então porque não aplicar esse mesmo senso de absurdo no ocidente, quando vários líderes muçulmanos nos pretendem impor as suas crenças ou obrigações de deferências?
Já faltava mais que vivêssemos com medo daquilo que dizemos ou criamos, com medo das susceptibilidades, com medo seja do que for, concernente à nossa liberdade; e não é exactamente a mesma coisa criar uma caricatura de Maomé, que gritar fogo num cinema, embora se tenha verificado, estupidamente, que ambas servcem para acender rastilhos...
Um pequeno à parte: alguém me consegue explicar porque é que umas ilustrações de Setembro só agora causam todo este celeuma? O que é que os extremistas árabes querem realmente; incendiar o ocidente? Andam eles à procuram de pretextos para nos pôr bombas em cada esquina? E indigna-me, muito mais do que o mau gosto das referidas caricaturas, que nenhum líder árabe moderado convoque manifestações contra a violência insana que se vive; fazem-no à boca pequena caso algum jornalista lhes pergunte o que pensam; mas todos se postaram nas primeiras filas para condenar as ilustrações.
Socialmente, a liberdade é um ideal humano muito difícil de atingir; e considerando-a como o objectivo mais elevado a que qualquer ser humano aspira, a liberdade absoluta, temos ainda muito caminho pela frente. Assim, do que não necessitamos é de mais regras, de mais mordaças, de mais tabus ou dogmas. Neste caso, julgo que basta um sucinto


NÃO; NEM PENSAR; VIVA A DINAMARCA!
 
Wednesday, February 01, 2006
  VAIDADE DOS PRAZERES, Eclesiastes




ARTE artista IMAGINA a imagem NOS CINEMAS o cinema O AUTOR o realizador O GUIONISTA o sonoplasta E O ESPECTADOR a espectadora NA SALA na saída É HOMEM é entrada E É MULHER e é meloso FOGOSO e incêndios É ESTÉTICA uma imagem UM PINTOR uma exposição que se vê de costas voltadas UM QUADRO uma electricidade UMA RELIGIÃO um pequeno NATAL um presidente da república PASSIONAL e uma MASSA atenta e uma MASSA desatenta E UMA MINORIA são diversas minorias ETNIAS de pretos e de BRANCOS e de verdes PAÍSES bandeiras HINOS e sentidos militares ARMADOS COM ARMAS pistolas CANHÕES metralhadoras TANQUES mulheres nuas no capacete POR DENTRO assalto (por dentro) MÃO ARMA E DENTE ou dentes OU DENTES e escrita E ESCRITOR e cuida dos teus dentes como se fossem a tua arma CONFLITO KAFKA um livro de escrita GESTO CRIATIVO ESPALMADO um livro COMPLETO e um livreiro do outro lado NA LIVRARIA na papelaria CANETAS NAS PRATELEIRAS DA PAPELARIA vício-vicio UMA PARTICULARIDADE INÓCUA e a actualidade é uma MERDA uma dispersão UM DESPERDÍCIO é lixo NA BOCA INTERNA DO CANTONEIRO na berma da estrada e da auto-estrada NO TRÁFEGO INTERNACIONAL e aeroporto E OTA e aeroportuário E OTÁRIO e mário PESCADOR NACIONAL uma coisinha bonita VERDURAS FRESCAS com árvores de ambos os lados da estrada NUM BRASIL REGIONAL (com z às vezes) UMA AMAZÓNIA INTEIRA florestal DENSA pesada UMA BÁSCULA basculante QUE BASCULA NA PEDREIRA com mármore por cima COM BETÃO POR CIMA com aço por E CIMENTO na betoneira máquina de lavar roupa dura DO PEDREIRO com mulheres nuas na boca HOMEM de mulheres mini FAMÍLIA NOS PÉS e ciência astrologia (BOA COMO QUALQUER OUTRA) diz-se na televisão E SERÁ VERDADE (se dizem na televisão) OLÁ olá portugal E SIC'ÀS DUAS POR (QUÊ) comenta o comentador A POLITIZAÇÃO É a globalização é DISTÂNCIA um distanciamento UMA VISÃO diário de PÚBLICO vasco não sei o quê MERDA vasco não sei o quê DIVÓRCIO um DIVÓRCIO dois UM E OUTRO é dois UMA CONJUNÇÃO uma conjugação DE MULHER com pénis COM HOMEM com pénis COM UMA MULHER snap snap PORNO o amor é PORNOGRÁFICO no quarto E TAMBÉM É carinhoso (COM CERTEZA COM CERTEZA) desculpe lá mas VEJA O FILME FAMILIAR as fotografias A MÁQUINA FOTOGRÁFICA ALI o olho atento O OLHO OPORTUNO o olho milimétrico E OS MILÍMETROS pequenos OS SEGUNDOS a fracção O DEDO MINDINHO DE TEMPO ALI mas pois claro HOJE sim E HOJE não AMANHÃ amanhã NUM TEMPO FUTURO não NÃO não SEJA RUÃO em ruanda NUM HOTEL com filhos de puta em volta do hotel ruanda A MATAR uma festa DE PUTAS E O VINHO verde E CEGUEIRA NOS COMENSAIS À VOLTA DO MORTO e mais que isto o MATADOR ALMODOVAR no alentejo NA PAISAGEM MORTA à volta AMARELA e à volta COMIGO comigo E CONTIGO e depois é preciso falar É O NOSSO DEVER apesar muito apesar DA ENXAQUECA e depois farmácia DO FARMACÊUTICO com preservativo gratuíto BONITO e preservativo caro FEIO preservatilvico É UM NEGÓCIO SABE um negócio enfim UM CHINÊS DA CHINA só que como os outros EM LISTA DE ESPERA imagino biliões de pessoas em lista de espera SHAKESPEARE A SER ou então a não ser OU SER MAS À ESPERA como todos os outros SHAKESPEARE A LER NO JORNAL AS ACTUALIDADES - a publicidade, esta publicidade

(já há algum tempo que tenho vontade de publicar um excerto deste texto - não me atrevo a publicá-lo na íntegra, é demasiado extenso -, e só agora, passados alguns dias sem vir a este espaço, me parece oportuno; vá lá saber-se porquê. este é um dos textos mais belos que conheço, que aliás inspirou muitos autores no campo das literaturas e não só. no que a mim se refere, fiquei tão entusiasmado quando o descobri, que acabei por transcrever um pequeno trecho numa das paredes do meu quarto com um marcador preto. a minha mãe pensou que me estava a tornar religioso e ficou contente; tentou inclusive arrastar-me consigo para a missa num domingo; depois acabou por verificar, não sem alguma tristeza, que era só mais uma das minhas reminiscências de psico adolescentino. e lá acabou por à missa sozinha.)

ARTE artista IMAGINA a imagem NOS CINEMAS o cinema O AUTOR o realizador O GUIONISTA o sonoplasta E O ESPECTADOR a espectadora NA SALA na saída É HOMEM é entrada E É MULHER e é meloso FOGOSO e incêndios É ESTÉTICA uma imagem UM PINTOR uma exposição que se vê de costas voltadas UM QUADRO uma electricidade UMA RELIGIÃO um pequeno NATAL um presidente da república PASSIONAL e uma MASSA atenta e uma MASSA desatenta E UMA MINORIA são diversas minorias ETNIAS de pretos e de BRANCOS e de verdes PAÍSES bandeiras HINOS e sentidos militares ARMADOS COM ARMAS pistolas CANHÕES metralhadoras TANQUES mulheres nuas no capacete POR DENTRO assalto (por dentro) MÃO ARMA E DENTE ou dentes OU DENTES e escrita E ESCRITOR e cuida dos teus dentes como se fossem a tua arma CONFLITO KAFKA um livro de escrita GESTO CRIATIVO ESPALMADO um livro COMPLETO e um livreiro do outro lado NA LIVRARIA na papelaria CANETAS NAS PRATELEIRAS DA PAPELARIA vício-vicio UMA PARTICULARIDADE INÓCUA e a actualidade é uma MERDA uma dispersão UM DESPERDÍCIO é lixo NA BOCA INTERNA DO CANTONEIRO na berma da estrada e da auto-estrada NO TRÁFEGO INTERNACIONAL e aeroporto E OTA e aeroportuário E OTÁRIO e mário PESCADOR NACIONAL uma coisinha bonita VERDURAS FRESCAS com árvores de ambos os lados da estrada NUM BRASIL REGIONAL (com z às vezes) UMA AMAZÓNIA INTEIRA florestal DENSA pesada UMA BÁSCULA basculante QUE BASCULA NA PEDREIRA com mármore por cima COM BETÃO POR CIMA com aço por E CIMENTO na betoneira máquina de lavar roupa dura DO PEDREIRO com mulheres nuas na boca HOMEM de mulheres mini FAMÍLIA NOS PÉS e ciência astrologia (BOA COMO QUALQUER OUTRA) diz-se na televisão E SERÁ VERDADE (se dizem na televisão) OLÁ olá portugal E SIC'ÀS DUAS POR (QUÊ) comenta o comentador A POLITIZAÇÃO É a globalização é DISTÂNCIA um distanciamento UMA VISÃO diário de PÚBLICO vasco não sei o quê MERDA vasco não sei o quê DIVÓRCIO um DIVÓRCIO dois UM E OUTRO é dois UMA CONJUNÇÃO uma conjugação DE MULHER com pénis COM HOMEM com pénis COM UMA MULHER snap snap PORNO o amor é PORNOGRÁFICO no quarto E TAMBÉM É carinhoso (COM CERTEZA COM CERTEZA) desculpe lá mas VEJA O FILME FAMILIAR as fotografias A MÁQUINA FOTOGRÁFICA ALI o olho atento O OLHO OPORTUNO o olho milimétrico E OS MILÍMETROS pequenos OS SEGUNDOS a fracção O DEDO MINDINHO DE TEMPO ALI mas pois claro HOJE sim E HOJE não AMANHÃ amanhã NUM TEMPO FUTURO não NÃO não SEJA RUÃO em ruanda NUM HOTEL com filhos de puta em volta do hotel ruanda A MATAR uma festa DE PUTAS E O VINHO verde E CEGUEIRA NOS COMENSAIS À VOLTA DO MORTO e mais que isto o MATADOR ALMODOVAR no alentejo NA PAISAGEM MORTA à volta AMARELA e à volta COMIGO comigo E CONTIGO e depois é preciso falar É O NOSSO DEVER apesar muito apesar DA ENXAQUECA e depois farmácia DO FARMACÊUTICO com preservativo gratuíto BONITO e preservativo caro FEIO preservatilvico É UM NEGÓCIO SABE um negócio enfim UM CHINÊS DA CHINA só que como os outros EM LISTA DE ESPERA imagino biliões de pessoas em lista de espera SHAKESPEARE A SER ou então a não ser OU SER MAS À ESPERA como todos os outros SHAKESPEARE A LER NO JORNAL AS ACTUALIDADES - a publicidade, esta publicidade

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CAPÍTULO 2 - VAIDADE DOS PRAZERES
Eu disse no meu coração:«Vamos! Tentemos a alegria, gozemos o prazer». Mas vi que também isto era vaidade. Do riso eu disse: «Loucura»! e da alegria: «Para que serves?».
Resolvi, dentro do meu coração, entregar a minha carne ao vinho, enquanto o meu espírito se aplicaria ainda à sabedoria, e procurar a loucura até experimentar que coisa seria mais agradável aos filhos dos homens, ou em que ocupação devem eles empregar-se neste mundo, durante os dias da sua vida.
Empreendi grandes trabalhos, construí para mim casas e plantei vinhas; fiz jardins e pomares, onde plantei toda a espécie de árvores frutíferas; construí depósitos de água para regar o bosque em que cresciam as árvores. Comprei escravos e escravas; outros nasceram-me em casa. Possuí muito gado, bois e ovelhas, mais do que todos os que me precederam em Jerusalém.
Amontoei prata e ouro, riquezas de reis e de províncias. Escolhi cantores e cantoras, e tudo o que faz as delícias dos filhos dos homens: numerosas mulheres. Fui melhor do que todos os que me precederam em Jerusalém, conservando, porém, a minha sabedoria.
Tudo o que os meus olhos desejavam, nada lhes recusei; não me privei de nenhuma alegria porque tinha alegria em todo o meu trabalho; esta foi a melhor parte do meu trabalho. Depois reflecti em todas as obras que as minhas mãos tinham feito e o trabalho que tive a fazê-las. E vi que tudo era vaidade e vento que passa e nada havia de proveitoso debaixo do sol.
Passei, então, à contemplação da sabedoria, da loucura e dos desvarios. Qual é o homem, que virá depois do rei, que há muito tempo foi designado?
E reconheci que a sabedoria leva vantagem sobre a loucura, como a luz leva vantagem sobre as trevas.

O SÁBIO E O LOUCO
Os olhos do sábio estão na sua cabeça, mas o insensato anda nas trevas.
E reconheci também que um mesmo destino espera ambos. Disse para mim próprio: uma vez que a minha sorte será a mesma que a do insensato, para que serve então toda a minha sabedoria? Então adverti: também isto é vaidade. Porque a memória do sábio não é mais eterna que a do insensato, antes, passado algum tempo, tudo igualmente se esquece. Mas então? Tanto morre o sábio como o ignorante!
Por isso, detestei a vida, ao ver que é mau tudo o que existe debaixo do sol; tudo é vaidade e vento que passa.
E detestei todo o trabalho que tinha feito debaixo do sol, porque tudo hei-de deixar àquele que virá depois de mim.
E quem sabe se esse será sábio ou insensato? Contudo, é ele quem disporá de todo o fruto dos meus trabalhos, que debaixo do sol me custaram trabalho e sabedoria. Também isto é vaidade.
Desesperei no meu coração de todo o trabalho que suportei debaixo do sol. Porque um homem que trabalhou com sabedoria, ciência e bom êxito para deixar o fruto do seu labor a outro, que em nada colaborou, é uma vaidade e uma grande desgraça. Com efeito, que resta ao homem de todo o seu trabalho, de todas as suas azáfamas com que se afatigou debaixo do sol? Todos os seus dias são cheios de dores e todos os seus trabalhos cheios de tristezas; nem mesmo durante a noite o seu coração descansa. Também isto é ainda vaidade.

CONCLUSÃO
Não há nada melhor para o homem que comer, beber e gozar o bem-estar, fruto do seu trabalho. Mas notei que também isto vem da mão de Deus. Quem, com efeito, como e bebe senão graças a ele? Àquele que lhe é agradável, Deus dá sabedoria, ciência e alegria; mas ao pecador, dá o cuidado de recolher e acumular bens, para depois os deixar a quem Deus quiser. E também isto é vaidade e vento que passa.
[...]»

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Thursday, January 26, 2006
  PERGUNTA FUNDAMENTAL
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"Com que instrumentos, nesta democracia moderna, você tenciona cumprir os designios da sua alma?"

Saul Bellow, Ravelstein
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Wednesday, January 25, 2006
  ELOGIO A HOLLYWOOD
ARTE artista IMAGINA a imagem NOS CINEMAS o cinema O AUTOR o realizador O GUIONISTA o sonoplasta E O ESPECTADOR a espectadora NA SALA na saída É HOMEM é entrada E É MULHER e é meloso FOGOSO e incêndios É ESTÉTICA uma imagem UM PINTOR uma exposição que se vê de costas voltadas UM QUADRO uma electricidade UMA RELIGIÃO um pequeno NATAL um presidente da república PASSIONAL e uma MASSA atenta e uma MASSA desatenta E UMA MINORIA são diversas minorias ETNIAS de pretos e de BRANCOS e de verdes PAÍSES bandeiras HINOS e sentidos militares ARMADOS COM ARMAS pistolas CANHÕES metralhadoras TANQUES mulheres nuas no capacete POR DENTRO assalto (por dentro) MÃO ARMA E DENTE ou dentes OU DENTES e escrita E ESCRITOR e cuida dos teus dentes como se fossem a tua arma CONFLITO KAFKA um livro de escrita GESTO CRIATIVO ESPALMADO um livro COMPLETO e um livreiro do outro lado NA LIVRARIA na papelaria CANETAS NAS PRATELEIRAS DA PAPELARIA vício-vicio UMA PARTICULARIDADE INÓCUA e a actualidade é uma MERDA uma dispersão UM DESPERDÍCIO é lixo NA BOCA INTERNA DO CANTONEIRO na berma da estrada e da auto-estrada NO TRÁFEGO INTERNACIONAL e aeroporto E OTA e aeroportuário E OTÁRIO e mário PESCADOR NACIONAL uma coisinha bonita VERDURAS FRESCAS com árvores de ambos os lados da estrada NUM BRASIL REGIONAL (com z às vezes) UMA AMAZÓNIA INTEIRA florestal DENSA pesada UMA BÁSCULA basculante QUE BASCULA NA PEDREIRA com mármore por cima COM BETÃO POR CIMA com aço por E CIMENTO na betoneira máquina de lavar roupa dura DO PEDREIRO com mulheres nuas na boca HOMEM de mulheres mini FAMÍLIA NOS PÉS e ciência astrologia (BOA COMO QUALQUER OUTRA) diz-se na televisão E SERÁ VERDADE (se dizem na televisão) OLÁ olá portugal E SIC'ÀS DUAS POR (QUÊ) comenta o comentador A POLITIZAÇÃO É a globalização é DISTÂNCIA um distanciamento UMA VISÃO diário de PÚBLICO vasco não sei o quê MERDA vasco não sei o quê DIVÓRCIO um DIVÓRCIO dois UM E OUTRO é dois UMA CONJUNÇÃO uma conjugação DE MULHER com pénis COM HOMEM com pénis COM UMA MULHER snap snap PORNO o amor é PORNOGRÁFICO no quarto E TAMBÉM É carinhoso (COM CERTEZA COM CERTEZA) desculpe lá mas VEJA O FILME FAMILIAR as fotografias A MÁQUINA FOTOGRÁFICA ALI o olho atento O OLHO OPORTUNO o olho milimétrico E OS MILÍMETROS pequenos OS SEGUNDOS a fracção O DEDO MINDINHO DE TEMPO ALI mas pois claro HOJE sim E HOJE não AMANHÃ amanhã NUM TEMPO FUTURO não NÃO não SEJA RUÃO em ruanda NUM HOTEL com filhos de puta em volta do hotel ruanda A MATAR uma festa DE PUTAS E O VINHO verde E CEGUEIRA NOS COMENSAIS À VOLTA DO MORTO e mais que isto o MATADOR ALMODOVAR no alentejo NA PAISAGEM MORTA à volta AMARELA e à volta COMIGO comigo E CONTIGO e depois é preciso falar É O NOSSO DEVER apesar muito apesar DA ENXAQUECA e depois farmácia DO FARMACÊUTICO com preservativo gratuíto BONITO e preservativo caro FEIO preservatilvico É UM NEGÓCIO SABE um negócio enfim UM CHINÊS DA CHINA só que como os outros EM LISTA DE ESPERA imagino biliões de pessoas em lista de espera SHAKESPEARE A SER ou então a não ser OU SER MAS À ESPERA como todos os outros SHAKESPEARE A LER NO JORNAL AS ACTUALIDADES - a publicidade, esta publicidade



ARTE artista IMAGINA a imagem NOS CINEMAS o cinema O AUTOR o realizador O GUIONISTA o sonoplasta E O ESPECTADOR a espectadora NA SALA na saída É HOMEM é entrada E É MULHER e é meloso FOGOSO e incêndios É ESTÉTICA uma imagem UM PINTOR uma exposição que se vê de costas voltadas UM QUADRO uma electricidade UMA RELIGIÃO um pequeno NATAL um presidente da república PASSIONAL e uma MASSA atenta e uma MASSA desatenta E UMA MINORIA são diversas minorias ETNIAS de pretos e de BRANCOS e de verdes PAÍSES bandeiras HINOS e sentidos militares ARMADOS COM ARMAS pistolas CANHÕES metralhadoras TANQUES mulheres nuas no capacete POR DENTRO assalto (por dentro) MÃO ARMA E DENTE ou dentes OU DENTES e escrita E ESCRITOR e cuida dos teus dentes como se fossem a tua arma CONFLITO KAFKA um livro de escrita GESTO CRIATIVO ESPALMADO um livro COMPLETO e um livreiro do outro lado NA LIVRARIA na papelaria CANETAS NAS PRATELEIRAS DA PAPELARIA vício-vicio UMA PARTICULARIDADE INÓCUA e a actualidade é uma MERDA uma dispersão UM DESPERDÍCIO é lixo NA BOCA INTERNA DO CANTONEIRO na berma da estrada e da auto-estrada NO TRÁFEGO INTERNACIONAL e aeroporto E OTA e aeroportuário E OTÁRIO e mário PESCADOR NACIONAL uma coisinha bonita VERDURAS FRESCAS com árvores de ambos os lados da estrada NUM BRASIL REGIONAL (com z às vezes) UMA AMAZÓNIA INTEIRA florestal DENSA pesada UMA BÁSCULA basculante QUE BASCULA NA PEDREIRA com mármore por cima COM BETÃO POR CIMA com aço por E CIMENTO na betoneira máquina de lavar roupa dura DO PEDREIRO com mulheres nuas na boca HOMEM de mulheres mini FAMÍLIA NOS PÉS e ciência astrologia (BOA COMO QUALQUER OUTRA) diz-se na televisão E SERÁ VERDADE (se dizem na televisão) OLÁ olá portugal E SIC'ÀS DUAS POR (QUÊ) comenta o comentador A POLITIZAÇÃO É a globalização é DISTÂNCIA um distanciamento UMA VISÃO diário de PÚBLICO vasco não sei o quê MERDA vasco não sei o quê DIVÓRCIO um DIVÓRCIO dois UM E OUTRO é dois UMA CONJUNÇÃO uma conjugação DE MULHER com pénis COM HOMEM com pénis COM UMA MULHER snap snap PORNO o amor é PORNOGRÁFICO no quarto E TAMBÉM É carinhoso (COM CERTEZA COM CERTEZA) desculpe lá mas VEJA O FILME FAMILIAR as fotografias A MÁQUINA FOTOGRÁFICA ALI o olho atento O OLHO OPORTUNO o olho milimétrico E OS MILÍMETROS pequenos OS SEGUNDOS a fracção O DEDO MINDINHO DE TEMPO ALI mas pois claro HOJE sim E HOJE não AMANHÃ amanhã NUM TEMPO FUTURO não NÃO não SEJA RUÃO em ruanda NUM HOTEL com filhos de puta em volta do hotel ruanda A MATAR uma festa DE PUTAS E O VINHO verde E CEGUEIRA NOS COMENSAIS À VOLTA DO MORTO e mais que isto o MATADOR ALMODOVAR no alentejo NA PAISAGEM MORTA à volta AMARELA e à volta COMIGO comigo E CONTIGO e depois é preciso falar É O NOSSO DEVER apesar muito apesar DA ENXAQUECA e depois farmácia DO FARMACÊUTICO com preservativo gratuíto BONITO e preservativo caro FEIO preservatilvico É UM NEGÓCIO SABE um negócio enfim UM CHINÊS DA CHINA só que como os outros EM LISTA DE ESPERA imagino biliões de pessoas em lista de espera SHAKESPEARE A SER ou então a não ser OU SER MAS À ESPERA como todos os outros SHAKESPEARE A LER NO JORNAL AS ACTUALIDADES - a publicidade, esta publicidade



Somos demasiado severos com o cinema que nos chega de Hollywood; chamamos-lhe nomes feios, de brejeirice para cima, e no entanto deveríamos dedicar-lhe um mínimo de simpatia e olhá-lo com mais atenção. É que estes filmes, no fundo, mais não fazem do que invocar o que em nós existe de mais oníricos, e de uma índole equiparável às brincadeiras em que éramos piratas, subíamos às laranjeiras, assaltávamos o barco de carregamentos inglês, e no final ainda ficávamos com a namorada do comandante.

Falando em termos estritamente conceptuais: não é verdade que o rapaz sempre sonhou tornar-se heróis? E não é também verdade que a rapariga sempre sonhou com uma paixão das que derreteria o mais plúmbeo coraçãozinho? Falamos em termos conceptuais, é claro; mas será que alguma vez estes dois sonhos se perdem?

Sabemos que a infância nos acompanha vida fora; e embora o gosto pela bola se vá mesclando com o gosto pela boneca, num equilíbrio sem vectores, a infância em si não se perde. Prova disso serão as coisas mais simples de que somos capazes, como por exemplo a nossa intimidade: os ridículos do amor.

Agora transponhamos isto para um filme de Hollywood: em qualquer filme que se preze, encontramos os momentos do herói que se adentra na multidão, agradecida por ter sido salva dos terroristas, e a frondosa heroína a cair-lhe nos braços, no final de um olhar intenso; e em qualquer filme de Hollywood, ao mesmo tempo, estamos a encontrar traços da nossa psicologia mais inconfessável. Estes filmes não são outra coisa, senão uma invocação.


Não será o Drácula uma ilustração vitoriana de um secreto desejo masculino, o desejo de entrar num bar e de conquistar a miúda que está encostada ao balcão, e apenas olhando para ela?

Além do heroísmo, da paixão e da conquista, encontramos exploradas muitas outras nuances: a nossa gulosice (chocolates), o medo do inesperado e do desconhecido (suspense), o ódio pela vilania e pela injustiça, a amizade utópica e duradoura, a capacidade ou necessidade de nos fascinarmos, o lado feminino dos homens, a velocidade que a vida deveria ter (ou seja a bicicleta a descer por uma rampa, com o volante a trepidar), o lado masculino das mulheres, a necessidade de sermos embalados por uma história; etc. Tudo isto é extraído directamente da nossa infância, da mesma maneira que tudo isto, quando pagamos o bilhete e assistimos à película, nos volta a arrebatar: voltamos a ser a criança, só que de um modo mais eficiente, mais mastigado, e mais sofisticado que uma história da Sophia, dos irmãos Grimm, ou mesmo o Principezinho.


Num tempo em que somos tão adultos, qual é o problemas de sermos infantes durante hora e meia? O truque destes filmes é apenas isto: tililar o nervo certo, isolando-o do nosso molho de nervos, conseguindo assim a proeza de nos projectar para a personagem do grande ecrã. Haveria algum problema se nos projectássemos no Cavaleiro da Dinamarca da Sophia? Acho que não. Então porque é que apodamos de brejeiro a projectarmo-nos em Bruce Willies, no momento em que desce pela conduta de ar de um arranha-céus?


Bem vistas as coisas, poderíamos até arranjar um novo tipo de classificação para cinema: o filme hollywodeano passaria a classificar-se como infantil ou adolescente (dependendo da sofisticação dos sonhos ou desejos explorados), e o cinema independente passaria a classificar-se como cinema adulto. Admitiríamos assim que pagávamos bilhete para sonhar um bocadinho e não para nos entretermos simplesmente; e tal como o cinema infantil não substitui o cinema adulto (este cinema adulto), uma infância também não substitui a outra.

Para concluir: sabem porque é que gostei do filme Amelie, do Jounet? Nada mais simples: apenas porque me apaixonei pela personagem.

 
Monday, January 23, 2006
  REINALDO ARENAS E A LIBERDADE - revisto e aumentado

Lidos por um ocidental, os relatos de Reinaldo Arenas na sua autobiografia são inquietantes; funcionam como um exercício iconoclasta, desmistificando a imagem deificada que ainda muito se tem de Fidel Castro, fundamentada principalmente no facto de tanto chatear os americanos, e de lograr, contra tudo e todos, subsistir na cadeira do poder, mesmo apesar do embargo económico de que é alvo.

O embargo, verdade seja dita, já não é tão asfixiante como há umas décadas atrás; há inúmeros os hotéis portugueses, espanhóis e italianos que se instalaram em Varadero; porém, o poderia entender-se, ou corresponder, como alguma abertura do regime, é afinal um falhanço redondo. Os hotéis são para turistas, a medicina avançada é para turistas, e o povinho apenas se aplica a lei de nivelar por baixo − a acreditar em Reinaldo Arenas e em oposição à versão oficial.

Há bem pouco tempo, o nosso prémio Nobel, um comunista inveterado, voltou as costas a cuba, depois de lhe ter entregue o montante que lhe coubera em Estocolmo. Porquê? Foram condenados à morte cinco intelectuais, aparentemente por serem contra-revolucionários; mas tenho a impressão, mesmo assim, que a visão ocidental é indulgente para com estes comportamentos de Fidel Castro. Acho que nós não temos bem a noção...

A biografia de Arenas, “Antes que Anoiteça”, é crua; e ao longo do texto, tive a noção de que não conseguia realmente conceber as provações de todos aqueles que teimam pelo direito à individualidade, ao livre pensamento, à livre expressão, ou da livre assunção sexual. Aqui, caro Arenas, a gente queixa-se porque Cavaco ganhou as eleições (dizemos que vem aí o fascismo), ou então porque o Sócrates boicotou as declarações do Manuel Alegre (censura). Tu, porém, olhando para o regime político em que eu vivo, não conseguirás entender ao que nos estamos a referir quando dizemos revanchismo, fascismo, golpe de estado ou outras expressões quejandas. São apenas politiquices de gente crescida com falta de brinquedos.

Qual é a ideia que Fidel tenta impor aos cubanos? Como é que um país governado por um regime tão asfixiante, por um tirano opressor, se clama tão desassombradamente livre? Não é fácil de entender; trata-se de uma visão filosófica e teórica, mas deturpada e levada demasiado à letra.

Poderíamos enunciar a perseguição da liberdade da seguinte maneira:

1.o homem sozinho não consegue ser livre; o homem sozinho está condenado à sua solidão, à sua redoma, à sua incapacidade de comunicar; o homem sozinho é imperfeito;
2.a liberdade de um homem implica duas coisas: um conhecimento de si muito grande, e ao mesmo tempo a aceitação profunda desse conhecimento;
3.cumpridas estas duas condições, o homem transcende de si mesmo e encontra o próximo; consegue depurar as suas vias de comunicação, aperfeiçoá-las até à pureza, e só assim consegue entregar-se ao outro.
4.quando o homem se transcende, podem acontecer muitas coisas: segundos os católicos, pode encontrar-se com Deus (daí os católicos dizerem que o homem é livre se amar Deus), ou podem encontrar o outro (daí que uma das máximas do comunismo seja a união faz a força)
5.a força comunista é, aliás, o equivalente mortal à glória de Deus de um católico que se submete às praxes do catequismo; e tanto atingindo a força como atingindo a glória divina, o homem atingirá, teoricamente, um objectivo superior a si mesmo. Com o comunismo, o homem conseguirá chegar e unir-se ao seu semelhante, e dois são mais fortes do que um; já no catolicismo, o homem consegue amar Deus e assim é livre, libertando-se de si mesmo; mas tanto um como o outro são a aniquilação do indivíduo.

Os conceitos parecem ideais; e muito do que acima escrevi são em larga medida os meus próprios conceitos de liberdade, ou de libertação; só que o homem nasce antes de mais nada indivíduo, e portanto, ser-lhe-á sempre difícil transcender sem se aniquilar. Não sei responder se um indivíduo pode transcender - ser livre - sozinho, nem comparar as duas liberdades; tudo me diz que o ser humano é mais livre na solidão. A teoria, no entanto, diz uma coisa diferente...



De qualquer das formas, caberá ao homem e não a um regime decidir se persegue ou não esta liberdade. Por outro lado, como disse umas linhas atrás, ele nunca conseguirá ser tão livre na companhia de outra pessoa como quando está sozinho (excepto no amor). A solidão a muitos títulos é uma fuga. Não é fácil, com toda a dispersão e todas as variáveis da intimidade do homem, que ele se conheça e se aceite de uma forma tão perfeita.

Adão trincou a maçã do conhecimento e isso fez com que tivesse consciência de si mesmo, uma consciência que o deixou perplexo - porque a ignorância torna-nos livres -; e quanto mais Adão se descobria a si mesmo, mais se implantavam a dúvida e as incertezas. Em relação a si mesmo, em relação a deus e em relação a eva; e consequentemente, descobriu que tinha vergonha. Desde então, Adão pretende regressar a Deus e à sua liberdade; mas não funcionaram as diversas torres de babel, tentando unificar a linguagem que permitiria, lá está, que o homem chegasse ao seu seguinte; que transcendesse - a propósito disto, paul auster tem dois ou três capítulos deliciosos no livro Trilogia de Nova Iorque; e wittgenstein tinha toda a razão: é preciso ensinar a mosca a sair da redoma.

Como é que o comunismo de Fidel, e todos os outros comunismos, persegue esta libertação e resolve o paradoxo? Pois pela subjugação, fazendo um bypass, àquela treta do auto-conhecimento e da aceitação, indo directamente ao que interessa. O regime não providencia nem mecanismos nem o tempo para que o homem se conheça a si mesmo; o regime conhece o homem melhor do que ele mesmo e sabe de antemão aquilo que lhe convém: atingir a força e aniquilar a individualidade (se o fim da liberdade é a aniquilação, porque não saltar por cima do conhecimento e da aceitação para ganhar tempo?).

A liberdade em Cuba, em suma, é garatujada em cima do joelho. O regime impõe ao homem a sua cartilha (daí as escolas de reeducação revolucionária, uma das coisas mais violentas do regime), impõe-lhe que renuncie a tudo o que entenda contra-revolucionário (individualismo, comércio livre, etc.), e castiga com prisão e tortura os transviados (leia-se por exemplo homossexuais e escritores). E como torturas não é preciso pensar-se apenas nas máquinas medievais das prisões, há ainda coisas tão mesquinhamente violentas como vizinhos incorporados na polícia secreta para denunciar vizinhos; há tias a denunciar sobrinhos; há amigos a trair amigos. E tudo isto para obrigarem o cubano a ser libre; mas pode alguém obrigar-me a ser livre? É um contra-senso. E será que existe apenas uma única liberdade?

Os meus pais estiveram em cuba de férias, há dois anos atrás, creio, e aconteceram dois episódios curiosos. Num deles, a minha mãe torceu um pé e foi ao hospital do hotel; ela é daquelas pessoas que leva uma farmácia atrás. Acontece que quando o médico lhe viu uma bolsa cheia de carteirinhas de aspegic 1000mg, no meio de toda uma parafernália de outros anti-piréticos, anti-histamínicos, anti tudo e mais alguma coisa, ficou emocionado. Pediu-lhas com timidez, e explicou que uma carteira daquelas, uma singular carteirinha de aspegic 1000mg, dava para curar enxaquecas durante semanas (nós, na nossa "alarvidade" ocidental, tomamos uma carteira inteira se nos dói a cabeça; um cubano contenta-se com uns pozinhos). Noutro episódio, um dos amigos que viajou com eles percebeu que estava a ser seguido por um rapagão em tronco nu; imediatamente passaram-lhe um sem-fim de hipóteses pela cabeça: o rapaz queria assaltá-lo, queria "engatá-lo", queria sabe-se lá o quê. Sentou-se num banco, de onde conseguir avistar um polícia na marginal, e ao mesmo tempo pôs ao colo a máquina fotográfica. O rapaz, porém, mesmo apercebendo-se dos seus receios, sentou-se ao lado dele. Imaginam para quê? Para falar. Para poder falar sem ser controlado, para poder dizer o que lhe apetecesse da vida, do fidel, dos amigos, e de tudo o que lhe viesse à cabeça.

Voltando a Reinaldo Arenas, ele consegue ao fim de quase vinte anos de perseguição sair de Cuba, e foi-se degradado devido a SIDA, contaminado já na vivência ocidental. Acabou depois por suicidar-se num quarto de hotel quando as mãos já não conseguiam escavar a terra (suicidar-se fora aliás um acto sempre falhado em Cuba; tentou-o por diversas vezes enquanto perseguido, mas acontece que um escritor com obra publicada no estrangeiro ocidental não se pode suicidar: o ocidente culparia Fidel de uma morte tão hedionda e isso o regime não permite; prefere que o escritor se retrate publicamente, que renuncie a tudo quanto é, que se humilhe perante uma audiência de sabujos revolucionários, que denuncie todos aqueles com quem falou de literatura e todos aqueles que foram seus amantes homossexuais, e que garanta ter aderido à lindeza da revolução em curso, dispondo-se a escrever longas glorificações). Por diversas vezes no seu livro, Arenas clama que a morte é a derradeira liberdade. Deliciosa ironia te tropeçou o destino, caro Arenas: saiste para o estados unidos para morreres sidoso.


[reinaldo arenas, 1943-1990]

Nota ainda: em Cuba o povo passa fome e vendem-se laranjas no mercado negro a preços exorbitantes; ao mesmo tempo, Fidel organiza desfiles de carnaval que esgotam os cofres do estado, já de si muito depauperado. Com relação a isto, Arenas narra um episódio muito curioso que tem lugar já no exílio: durante um jantar, Arenas é confrontado por um comunista alemão que lhe diz mesmo assim preferir o regime de Fidel à democracia norte-americana. Ouvindo isto, Arenas levanta-se para ele, pega no prato de comida que tem na frente e arroja-o contra a parede; e diz-lhe: agora sim podes ser um castrista. A estes comunistas, Arenas chama de comunistas de luxo.

 
Saturday, January 21, 2006
  às tantas da matina depois de arrumar a cozinha e lavar os dentes
ARTE artista IMAGINA a imagem NOS CINEMAS o cinema O AUTOR o realizador O GUIONISTA o sonoplasta E O ESPECTADOR a espectadora NA SALA na saída É HOMEM é entrada E É MULHER e é meloso FOGOSO e incêndios É ESTÉTICA uma imagem UM PINTOR uma exposição que se vê de costas voltadas UM QUADRO uma electricidade UMA RELIGIÃO um pequeno NATAL um presidente da república PASSIONAL e uma MASSA atenta e uma MASSA desatenta E UMA MINORIA são diversas minorias ETNIAS de pretos e de BRANCOS e de verdes PAÍSES bandeiras HINOS e sentidos militares ARMADOS COM ARMAS pistolas CANHÕES metralhadoras TANQUES mulheres nuas no capacete POR DENTRO assalto (por dentro) MÃO ARMA E DENTE ou dentes OU DENTES e escrita E ESCRITOR e cuida dos teus dentes como se fossem a tua arma CONFLITO KAFKA um livro de escrita GESTO CRIATIVO ESPALMADO um livro COMPLETO e um livreiro do outro lado NA LIVRARIA na papelaria CANETAS NAS PRATELEIRAS DA PAPELARIA vício-vicio UMA PARTICULARIDADE INÓCUA e a actualidade é uma MERDA uma dispersão UM DESPERDÍCIO é lixo NA BOCA INTERNA DO CANTONEIRO na berma da estrada e da auto-estrada NO TRÁFEGO INTERNACIONAL e aeroporto E OTA e aeroportuário E OTÁRIO e mário PESCADOR NACIONAL uma coisinha bonita VERDURAS FRESCAS com árvores de ambos os lados da estrada NUM BRASIL REGIONAL (com z às vezes) UMA AMAZÓNIA INTEIRA florestal DENSA pesada UMA BÁSCULA basculante QUE BASCULA NA PEDREIRA com mármore por cima COM BETÃO POR CIMA com aço por E CIMENTO na betoneira máquina de lavar roupa dura DO PEDREIRO com mulheres nuas na boca HOMEM de mulheres mini FAMÍLIA NOS PÉS e ciência astrologia (BOA COMO QUALQUER OUTRA) diz-se na televisão E SERÁ VERDADE (se dizem na televisão) OLÁ olá portugal E SIC'ÀS DUAS POR (QUÊ) comenta o comentador A POLITIZAÇÃO É a globalização é DISTÂNCIA um distanciamento UMA VISÃO diário de PÚBLICO vasco não sei o quê MERDA vasco não sei o quê DIVÓRCIO um DIVÓRCIO dois UM E OUTRO é dois UMA CONJUNÇÃO uma conjugação DE MULHER com pénis COM HOMEM com pénis COM UMA MULHER snap snap PORNO o amor é PORNOGRÁFICO no quarto E TAMBÉM É carinhoso (COM CERTEZA COM CERTEZA) desculpe lá mas VEJA O FILME FAMILIAR as fotografias A MÁQUINA FOTOGRÁFICA ALI o olho atento O OLHO OPORTUNO o olho milimétrico E OS MILÍMETROS pequenos OS SEGUNDOS a fracção O DEDO MINDINHO DE TEMPO ALI mas pois claro HOJE sim E HOJE não AMANHÃ amanhã NUM TEMPO FUTURO não NÃO não SEJA RUÃO em ruanda NUM HOTEL com filhos de puta em volta do hotel ruanda A MATAR uma festa DE PUTAS E O VINHO verde E CEGUEIRA NOS COMENSAIS À VOLTA DO MORTO e mais que isto o MATADOR ALMODOVAR no alentejo NA PAISAGEM MORTA à volta AMARELA e à volta COMIGO comigo E CONTIGO e depois é preciso falar É O NOSSO DEVER apesar muito apesar DA ENXAQUECA e depois farmácia DO FARMACÊUTICO com preservativo gratuíto BONITO e preservativo caro FEIO preservatilvico É UM NEGÓCIO SABE um negócio enfim UM CHINÊS DA CHINA só que como os outros EM LISTA DE ESPERA imagino biliões de pessoas em lista de espera SHAKESPEARE A SER ou então a não ser OU SER MAS À ESPERA como todos os outros SHAKESPEARE A LER NO JORNAL AS ACTUALIDADES - a publicidade, esta publicidade
estou a olhar por última vez para o blog antes de me deitar; são seis e vinte da noite e só agora me apetece o sono; e reparei na coluna da direita onde vou acumulando links sem grande organização. penso: é tal e qual os livros nas minhas estantes; uma dia destes arrumam-se por apelido.
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  a despedida
ARTE artista IMAGINA a imagem NOS CINEMAS o cinema O AUTOR o realizador O GUIONISTA o sonoplasta E O ESPECTADOR a espectadora NA SALA na saída É HOMEM é entrada E É MULHER e é meloso FOGOSO e incêndios É ESTÉTICA uma imagem UM PINTOR uma exposição que se vê de costas voltadas UM QUADRO uma electricidade UMA RELIGIÃO um pequeno NATAL um presidente da república PASSIONAL e uma MASSA atenta e uma MASSA desatenta E UMA MINORIA são diversas minorias ETNIAS de pretos e de BRANCOS e de verdes PAÍSES bandeiras HINOS e sentidos militares ARMADOS COM ARMAS pistolas CANHÕES metralhadoras TANQUES mulheres nuas no capacete POR DENTRO assalto (por dentro) MÃO ARMA E DENTE ou dentes OU DENTES e escrita E ESCRITOR e cuida dos teus dentes como se fossem a tua arma CONFLITO KAFKA um livro de escrita GESTO CRIATIVO ESPALMADO um livro COMPLETO e um livreiro do outro lado NA LIVRARIA na papelaria CANETAS NAS PRATELEIRAS DA PAPELARIA vício-vicio UMA PARTICULARIDADE INÓCUA e a actualidade é uma MERDA uma dispersão UM DESPERDÍCIO é lixo NA BOCA INTERNA DO CANTONEIRO na berma da estrada e da auto-estrada NO TRÁFEGO INTERNACIONAL e aeroporto E OTA e aeroportuário E OTÁRIO e mário PESCADOR NACIONAL uma coisinha bonita VERDURAS FRESCAS com árvores de ambos os lados da estrada NUM BRASIL REGIONAL (com z às vezes) UMA AMAZÓNIA INTEIRA florestal DENSA pesada UMA BÁSCULA basculante QUE BASCULA NA PEDREIRA com mármore por cima COM BETÃO POR CIMA com aço por E CIMENTO na betoneira máquina de lavar roupa dura DO PEDREIRO com mulheres nuas na boca HOMEM de mulheres mini FAMÍLIA NOS PÉS e ciência astrologia (BOA COMO QUALQUER OUTRA) diz-se na televisão E SERÁ VERDADE (se dizem na televisão) OLÁ olá portugal E SIC'ÀS DUAS POR (QUÊ) comenta o comentador A POLITIZAÇÃO É a globalização é DISTÂNCIA um distanciamento UMA VISÃO diário de PÚBLICO vasco não sei o quê MERDA vasco não sei o quê DIVÓRCIO um DIVÓRCIO dois UM E OUTRO é dois UMA CONJUNÇÃO uma conjugação DE MULHER com pénis COM HOMEM com pénis COM UMA MULHER snap snap PORNO o amor é PORNOGRÁFICO no quarto E TAMBÉM É carinhoso (COM CERTEZA COM CERTEZA) desculpe lá mas VEJA O FILME FAMILIAR as fotografias A MÁQUINA FOTOGRÁFICA ALI o olho atento O OLHO OPORTUNO o olho milimétrico E OS MILÍMETROS pequenos OS SEGUNDOS a fracção O DEDO MINDINHO DE TEMPO ALI mas pois claro HOJE sim E HOJE não AMANHÃ amanhã NUM TEMPO FUTURO não NÃO não SEJA RUÃO em ruanda NUM HOTEL com filhos de puta em volta do hotel ruanda A MATAR uma festa DE PUTAS E O VINHO verde E CEGUEIRA NOS COMENSAIS À VOLTA DO MORTO e mais que isto o MATADOR ALMODOVAR no alentejo NA PAISAGEM MORTA à volta AMARELA e à volta COMIGO comigo E CONTIGO e depois é preciso falar É O NOSSO DEVER apesar muito apesar DA ENXAQUECA e depois farmácia DO FARMACÊUTICO com preservativo gratuíto BONITO e preservativo caro FEIO preservatilvico É UM NEGÓCIO SABE um negócio enfim UM CHINÊS DA CHINA só que como os outros EM LISTA DE ESPERA imagino biliões de pessoas em lista de espera SHAKESPEARE A SER ou então a não ser OU SER MAS À ESPERA como todos os outros SHAKESPEARE A LER NO JORNAL AS ACTUALIDADES - a publicidade, esta publicidade


[foto de GIOVANI PAIM, Masturbação fotográrica]

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"é não
masturbanão com a mão e os meus olhos
masturbapão a cidade as ruas

olho para o chão e dispo-me dos cheiros
da estação dos dois filigranas no areal que pisámos
quando íamos de sim ao assim
ruminando a espera

mas hoje ponho-me apenas a masturbar os discos que ouvimos
a masturbar o pão
e o coração ainda atento ainda à espera
ponho-me a masturbar o tempo e a casa
o quarto demasiado aquecido
e o gesto que ainda sabe tocar mas já não serve para nada

ponho-me a masturbar
o acordar a meio da manhã e dizer amo-te

com as duas mãos masturbamor
a regalia os cafés
os analistas dos jornais agora amarelados
gastar tudo deitar tudo fora
esta vida já não te pertence
que queres que faça ainda - que ta vá emprestando?

sempre que te ejaculo no sifão a memória cai
retiro a mão das tuas entranhas e deixo de querer puxar
encolho-me noutro universo digo deus às vezes
leio livros escrevo coisas no caderno
vejo televisão levanto-me da cama e saio à rua
e noto que ficar triste traz a beleza do mundo frágil
até que um dia deixas de doer-me a despedida"
 
Friday, January 20, 2006
  A PASSAGEM DO TEMPO
ARTE artista IMAGINA a imagem NOS CINEMAS o cinema O AUTOR o realizador O GUIONISTA o sonoplasta E O ESPECTADOR a espectadora NA SALA na saída É HOMEM é entrada E É MULHER e é meloso FOGOSO e incêndios É ESTÉTICA uma imagem UM PINTOR uma exposição que se vê de costas voltadas UM QUADRO uma electricidade UMA RELIGIÃO um pequeno NATAL um presidente da república PASSIONAL e uma MASSA atenta e uma MASSA desatenta E UMA MINORIA são diversas minorias ETNIAS de pretos e de BRANCOS e de verdes PAÍSES bandeiras HINOS e sentidos militares ARMADOS COM ARMAS pistolas CANHÕES metralhadoras TANQUES mulheres nuas no capacete POR DENTRO assalto (por dentro) MÃO ARMA E DENTE ou dentes OU DENTES e escrita E ESCRITOR e cuida dos teus dentes como se fossem a tua arma CONFLITO KAFKA um livro de escrita GESTO CRIATIVO ESPALMADO um livro COMPLETO e um livreiro do outro lado NA LIVRARIA na papelaria CANETAS NAS PRATELEIRAS DA PAPELARIA vício-vicio UMA PARTICULARIDADE INÓCUA e a actualidade é uma MERDA uma dispersão UM DESPERDÍCIO é lixo NA BOCA INTERNA DO CANTONEIRO na berma da estrada e da auto-estrada NO TRÁFEGO INTERNACIONAL e aeroporto E OTA e aeroportuário E OTÁRIO e mário PESCADOR NACIONAL uma coisinha bonita VERDURAS FRESCAS com árvores de ambos os lados da estrada NUM BRASIL REGIONAL (com z às vezes) UMA AMAZÓNIA INTEIRA florestal DENSA pesada UMA BÁSCULA basculante QUE BASCULA NA PEDREIRA com mármore por cima COM BETÃO POR CIMA com aço por E CIMENTO na betoneira máquina de lavar roupa dura DO PEDREIRO com mulheres nuas na boca HOMEM de mulheres mini FAMÍLIA NOS PÉS e ciência astrologia (BOA COMO QUALQUER OUTRA) diz-se na televisão E SERÁ VERDADE (se dizem na televisão) OLÁ olá portugal E SIC'ÀS DUAS POR (QUÊ) comenta o comentador A POLITIZAÇÃO É a globalização é DISTÂNCIA um distanciamento UMA VISÃO diário de PÚBLICO vasco não sei o quê MERDA vasco não sei o quê DIVÓRCIO um DIVÓRCIO dois UM E OUTRO é dois UMA CONJUNÇÃO uma conjugação DE MULHER com pénis COM HOMEM com pénis COM UMA MULHER snap snap PORNO o amor é PORNOGRÁFICO no quarto E TAMBÉM É carinhoso (COM CERTEZA COM CERTEZA) desculpe lá mas VEJA O FILME FAMILIAR as fotografias A MÁQUINA FOTOGRÁFICA ALI o olho atento O OLHO OPORTUNO o olho milimétrico E OS MILÍMETROS pequenos OS SEGUNDOS a fracção O DEDO MINDINHO DE TEMPO ALI mas pois claro HOJE sim E HOJE não AMANHÃ amanhã NUM TEMPO FUTURO não NÃO não SEJA RUÃO em ruanda NUM HOTEL com filhos de puta em volta do hotel ruanda A MATAR uma festa DE PUTAS E O VINHO verde E CEGUEIRA NOS COMENSAIS À VOLTA DO MORTO e mais que isto o MATADOR ALMODOVAR no alentejo NA PAISAGEM MORTA à volta AMARELA e à volta COMIGO comigo E CONTIGO e depois é preciso falar É O NOSSO DEVER apesar muito apesar DA ENXAQUECA e depois farmácia DO FARMACÊUTICO com preservativo gratuíto BONITO e preservativo caro FEIO preservatilvico É UM NEGÓCIO SABE um negócio enfim UM CHINÊS DA CHINA só que como os outros EM LISTA DE ESPERA imagino biliões de pessoas em lista de espera SHAKESPEARE A SER ou então a não ser OU SER MAS À ESPERA como todos os outros SHAKESPEARE A LER NO JORNAL AS ACTUALIDADES - a publicidade, esta publicidade

[a persistência da memória - salvador dali]



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Enquanto passeava pelo jardim, reconheci à distância um homem que estava sentado num banco à sombra; não me recordei de como se chamava, e ainda agora não recordo, mas foi em tempos zelador de uma agremiação que eu em miúdo frequentei muito com o meu avô, e onde passava tardes inteiras a brincar com outros miúdos da minha idade.

Lembro-me dele como um homem rezingão nessa altura, e severo, mesmo até quando sorria. E não disfarçava o facto de não gostar de crianças; por isso andava sempre atrás de nós, vociferando para que não fizéssemos barulho e não corrêssemos pelos corredores, tudo numa constância inquebrantável e por entre ameaças de chamar os nossos pais ou mesmo a polícia. E nós incomodávamos toda a gente, é óbvio que sim, quando nos escondíamos debaixo das mesas no meio da gritaria. Mas acabámos por ter certo medo deste homem.

Porém, quando hoje me cruzei com ele, não me reconheceu, embora tenha gritado comigo milhentas vezes. Olhou para mim com um olhar vazio, talvez curioso pela minha aparência algo excêntrica, suponho, mas nem sequer me acenou com a cabeça - voltou a depor o olhar no chão, eu também passei e deixei de olhar-me com ele.

Estava realmente velho, o homem; estava gasto. No princípio, pensei que ainda fosse possível reviver aquele temor respeitoso que dantes sentia por ele; mas eu hoje já não me ponho debaixo das mesas nem incomodo tanto as pessoas, e apenas senti uma vergonhosa lástima por ele, juntamente com alguma inquietação. A sua velhice era frouxa e sobrava muito pouco da severidade firme de outros dias; estava tal e qual os outros velhos que passam os dias num banco qualquer da cidade; alguns ainda jogam às cartas; outros têm amigos, mas muitos foram ficando para trás e apenas esperam ir também.

Pensei: é apenas isto a passagem do tempo; pouco a pouco ficarmos mais parados, cada vez mais indiferentes a quem passa, até nos tornarmos uma memória dentro de um saco de carne gasta. Eu já não incomodo tanto as pessoas; dantes incomodava. É um facto.

 
  FRASE ROUBADA E ADAPTADA LIVREMENTE AO ESCRITOR REINALDO ARENAS EXILADO CUBANO E SUICIDADO QUANDO AS MÃOS DEIXARAM DE FUNCINAR
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"Eu vivo como num desterro. Exilado, vivo como se me estivessem a perdoar a vida, sempre prestes a ser rejeitado. Eu não tenho um país; tenho um contrapaís."

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Thursday, January 19, 2006
  PROVÉRBIOS PARA USO ACADÉMICO
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Recebi ontem este mail e dei-lhe o título de “provérbios para uso académico”, já percebereis porquê. É delicioso. Desconheço que seja o autor da proeza; ele apenas deixou registado um endereço electrónico, com o qual assino por baixo. Quaisquer reclamações, é favor enviar-lhas a ele.

… … … … … …

Expõe-me com quem deambulas e a tua idiossincrasia augurarei.
(Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és)

Espécime avícola na cavidade metacárpica, supera os congéneres revolteando em duplicado.
(Mais vale um pássaro na mão, que dois a voar)

Ausência de percepção ocular, insensibiliza órgão cardial.
(Olhos que não vêem, coração que não sente)

Equídeo objecto de dádiva, não é passível de observação odontológica.
(A cavalo dado não se olham os dentes)

O globo ocular do proprietário torna obesos os bovinos.
(O olho do amo engorda o gado)

Idêntico ascendente, idêntico descendente.
(Tal pai, tal filho)

Descendente de espécime piscícola sabe locomover-se em líquidoinorgânico.
(Filho de peixe sabe nadar)

Pequena leguminosa seca após pequena leguminosa seca atesta a capacidade de ingestão de espécie avícola.
(Grão a grão enche a galinha o papo) - lindo!!

Tem o monarca no baixo ventre
(Tem o rei na barriga)

Aquele que movimenta os músculos supra faciais mais longe do primeiro, acabará por movimentá-los em condições substancialmente mais favoráveis.
(Quem ri por último ri melhor)

Quem aguarda longamente, atinge o estado de exaustão.
(Quem espera desespera)


anónimo

ARTE artista IMAGINA a imagem NOS CINEMAS o cinema O AUTOR o realizador O GUIONISTA o sonoplasta E O ESPECTADOR a espectadora NA SALA na saída É HOMEM é entrada E É MULHER e é meloso FOGOSO e incêndios É ESTÉTICA uma imagem UM PINTOR uma exposição que se vê de costas voltadas UM QUADRO uma electricidade UMA RELIGIÃO um pequeno NATAL um presidente da república PASSIONAL e uma MASSA atenta e uma MASSA desatenta E UMA MINORIA são diversas minorias ETNIAS de pretos e de BRANCOS e de verdes PAÍSES bandeiras HINOS e sentidos militares ARMADOS COM ARMAS pistolas CANHÕES metralhadoras TANQUES mulheres nuas no capacete POR DENTRO assalto (por dentro) MÃO ARMA E DENTE ou dentes OU DENTES e escrita E ESCRITOR e cuida dos teus dentes como se fossem a tua arma CONFLITO KAFKA um livro de escrita GESTO CRIATIVO ESPALMADO um livro COMPLETO e um livreiro do outro lado NA LIVRARIA na papelaria CANETAS NAS PRATELEIRAS DA PAPELARIA vício-vicio UMA PARTICULARIDADE INÓCUA e a actualidade é uma MERDA uma dispersão UM DESPERDÍCIO é lixo NA BOCA INTERNA DO CANTONEIRO na berma da estrada e da auto-estrada NO TRÁFEGO INTERNACIONAL e aeroporto E OTA e aeroportuário E OTÁRIO e mário PESCADOR NACIONAL uma coisinha bonita VERDURAS FRESCAS com árvores de ambos os lados da estrada NUM BRASIL REGIONAL (com z às vezes) UMA AMAZÓNIA INTEIRA florestal DENSA pesada UMA BÁSCULA basculante QUE BASCULA NA PEDREIRA com mármore por cima COM BETÃO POR CIMA com aço por E CIMENTO na betoneira máquina de lavar roupa dura DO PEDREIRO com mulheres nuas na boca HOMEM de mulheres mini FAMÍLIA NOS PÉS e ciência astrologia (BOA COMO QUALQUER OUTRA) diz-se na televisão E SERÁ VERDADE (se dizem na televisão) OLÁ olá portugal E SIC'ÀS DUAS POR (QUÊ) comenta o comentador A POLITIZAÇÃO É a globalização é DISTÂNCIA um distanciamento UMA VISÃO diário de PÚBLICO vasco não sei o quê MERDA vasco não sei o quê DIVÓRCIO um DIVÓRCIO dois UM E OUTRO é dois UMA CONJUNÇÃO uma conjugação DE MULHER com pénis COM HOMEM com pénis COM UMA MULHER snap snap PORNO o amor é PORNOGRÁFICO no quarto E TAMBÉM É carinhoso (COM CERTEZA COM CERTEZA) desculpe lá mas VEJA O FILME FAMILIAR as fotografias A MÁQUINA FOTOGRÁFICA ALI o olho atento O OLHO OPORTUNO o olho milimétrico E OS MILÍMETROS pequenos OS SEGUNDOS a fracção O DEDO MINDINHO DE TEMPO ALI mas pois claro HOJE sim E HOJE não AMANHÃ amanhã NUM TEMPO FUTURO não NÃO não SEJA RUÃO em ruanda NUM HOTEL com filhos de puta em volta do hotel ruanda A MATAR uma festa DE PUTAS E O VINHO verde E CEGUEIRA NOS COMENSAIS À VOLTA DO MORTO e mais que isto o MATADOR ALMODOVAR no alentejo NA PAISAGEM MORTA à volta AMARELA e à volta COMIGO comigo E CONTIGO e depois é preciso falar É O NOSSO DEVER apesar muito apesar DA ENXAQUECA e depois farmácia DO FARMACÊUTICO com preservativo gratuíto BONITO e preservativo caro FEIO preservatilvico É UM NEGÓCIO SABE um negócio enfim UM CHINÊS DA CHINA só que como os outros EM LISTA DE ESPERA imagino biliões de pessoas em lista de espera SHAKESPEARE A SER ou então a não ser OU SER MAS À ESPERA como todos os outros SHAKESPEARE A LER NO JORNAL AS ACTUALIDADES - a publicidade, esta publicidade
 
Wednesday, January 18, 2006
  hoje...
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...chateei-me com um velho na fila para o pão. em tempos de racionamento já se sabe, e ainda por cima, contra velhos não há argumentos.

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Tuesday, January 17, 2006
  o amolador
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a cidade onde vivo tem um sem-fim de curiosidades, acerca das quais muitas vezes nem sei o que pensar. muitas são o reflexo de um provincianismo cultural que não quer romper consigo mesmo, onde os costumes são mesmo mesmo brandos; com isto vêm todas as consequências que possamos imaginar.

a cidade conta vinte mil habitantes, mais número menos número, e vê-se rodeada por searas de perder de vista (tal como qualquer povoado alentejano, que no fundo é uma ilha rodeada por paisagem).

mas há um cinema que passa king kings e outros filmes quejandos, com dois ou três meses de atraso. existem dois museus, um deles de fotografia mas com tendência a tornar-se obsoleto, já que a exposição é sempre a mesma, uma exposição do tipo que dá nome ao museu. há uma biblioteca enorme, com um espólio de livros e documentos antigos de meter inveja, e que no entanto oferece ao público apenas duas salas de livros, sem computadores, e com três empregados que falam alto da novela da noite anterior. e assim como o espólio da biblioteca, existe todo um património de arquitectura militar que talvez a unesco reconheça. ou não.

o legado militar é algo bem vincado na cidade. durante muitos anos, Elvas era um importante centro de recrutamento e de congregação de militares, e muita gente ainda se lembra da cidade devido a ter feito aqui a recruta; hoje, no entanto, fala-se de transferir-se o regimento para lisboa, num grande gesto de descentralização e enfim: não há bons nem maus neste mundo, há apenas uns mais do que outros...

há um parque industrial e ao lado um pavilhão de exposições da mesma índole. há um hospital relativamente bem equipado, três campos de futebol e um estádio de desportos de pista, onde há uns anos decorreu o europeu de atletismo. existem inclusive uma réplica do pavilhão atlântico de proporções consideráveis, tendo em conta o tamanho da cidade, e também um parque de estacionamento subterrâneo no centro, por debaixo da praça principal. e em volta da cidade há uma circular.

como se vê, a nível de infra-estruturas, o município não está mal servido de todo. isto deve-se em larga medida ao edil socialista que governa actualmente, honra lhe seja feita; mas o que à primeira vista poderia entender-se como indícios de uma modernidade latente, não é mais do que mera ilusão. nada mais falho.

perdura uma mentalidade imobilizada e de submissão ao dinheiro e ao estatuto, o que advirá possivelmente dos tempos feudais do alentejo, onde o 25 de abril ainda está, assim como assim, por acontecer. e não há uma exposição na casa da cultura que não tenha que ver bordados e aquela pintura paisagista sobremaneira demodé (salvo as exposições de fotografia, ou melhor, A exposição de fotografia).

o maior evento cultural da cidade é a feira de s. mateus, onde costumam actuar artistas pimbas e se apanham umas bebedeiras engraçadas, a concentração de motards, um mês de teatro que em verdade são quatro fins-de-semana e onde actuam sempre os mesmos grupos amadores, e ainda um mês de música de câmara, que muito agradavelmente me surpreendeu. além disto, o mais é marginal e escasso. existem projectos (principalmente bandas) mas demasiado privado e retraído.

é neste cenário algo contraditório que de repente oiço a flauta de um amolador. hoje. talvez muitos não saibam o que é um amolador; é aquele tipo que percorre as ruas de uma cidade, levando pela mão a bicicleta adaptada ao ofício; tem presa selim uma mó rotativa, a motor, e com a qual ele afia facas e tesouras.

custa um euro o serviço. uma vez desci à rua com o simples propósito de lhe perguntar estas e outras coisas; e obriguei a minha mãe a levar-lhe duas facas que cortavam menos bem, coisa que ela acabou por fazer, meio a contra gosto.

claro que num tempo em que toda a gente compra sapatos novos quando se rompem os velhos, e compra uma faca nova quando a velha deixa de cortar, esta profissão é uma raridade. mas o som daquela flauta (que não é bem uma flauta; é mais uma flauta de pan de plástico e com certeza terá um nome próprio) constitui uma das recordações mais invocativas da minha infância. lembro-me perfeitamente de estar a jogar à bola com os meus amigos no meio da avenida, e de repente, do nada, aquela estridência móvel rompia os nossos gritos.

durante muito tempo, não soube de onde provinha aquele som; nunca chegava a ver o amolador pois coincidia sempre passar na rua paralela à minha, ou então muito ao longe. e devido a isso, o amolador adquiria contornos que roçagavam o místico. ele podia ser qualquer coisa; podia ser o trilo de um pássaro qualquer; podia ser uma carrinha de gelados; podia ser tanta coisa.

o mistério não se dissipou até finalmente ver o amolador; e obviamente, com alguma decepção à mistura. era um homem gasto, com o rosto tisnado e metido nuns andrajos que faziam alguma pena, e a quem falta metade do dedo indicador. envergava um boné do sporting; e não vendia gelados, e estava muito longe de ser um ajax ou um ícaro.

a minha avó explicara-me diversas vezes que um amolador é um tipo que afia facas e tesouras, porém a explicação sempre me parecia frágil e escassa; num tempo em que o meu principal passatempo era saltar os muros dos quintais daquela avenida, como se estivesse metido numa missão ultra-secreta, que saberia a minha avó daquele som tão incrível? e se ela escolhia pôr nele apenas um tipo que afiasse facas, o problema era dela. eu punha muitas outras coisas sem nome. bendita infância, não é?
 
Monday, January 16, 2006
  e agora a vez de um rei
ARTE artista IMAGINA a imagem NOS CINEMAS o cinema O AUTOR o realizador O GUIONISTA o sonoplasta E O ESPECTADOR a espectadora NA SALA na saída É HOMEM é entrada E É MULHER e é meloso FOGOSO e incêndios É ESTÉTICA uma imagem UM PINTOR uma exposição que se vê de costas voltadas UM QUADRO uma electricidade UMA RELIGIÃO um pequeno NATAL um presidente da república PASSIONAL e uma MASSA atenta e uma MASSA desatenta E UMA MINORIA são diversas minorias ETNIAS de pretos e de BRANCOS e de verdes PAÍSES bandeiras HINOS e sentidos militares ARMADOS COM ARMAS pistolas CANHÕES metralhadoras TANQUES mulheres nuas no capacete POR DENTRO assalto (por dentro) MÃO ARMA E DENTE ou dentes OU DENTES e escrita E ESCRITOR e cuida dos teus dentes como se fossem a tua arma CONFLITO KAFKA um livro de escrita GESTO CRIATIVO ESPALMADO um livro COMPLETO e um livreiro do outro lado NA LIVRARIA na papelaria CANETAS NAS PRATELEIRAS DA PAPELARIA vício-vicio UMA PARTICULARIDADE INÓCUA e a actualidade é uma MERDA uma dispersão UM DESPERDÍCIO é lixo NA BOCA INTERNA DO CANTONEIRO na berma da estrada e da auto-estrada NO TRÁFEGO INTERNACIONAL e aeroporto E OTA e aeroportuário E OTÁRIO e mário PESCADOR NACIONAL uma coisinha bonita VERDURAS FRESCAS com árvores de ambos os lados da estrada NUM BRASIL REGIONAL (com z às vezes) UMA AMAZÓNIA INTEIRA florestal DENSA pesada UMA BÁSCULA basculante QUE BASCULA NA PEDREIRA com mármore por cima COM BETÃO POR CIMA com aço por E CIMENTO na betoneira máquina de lavar roupa dura DO PEDREIRO com mulheres nuas na boca HOMEM de mulheres mini FAMÍLIA NOS PÉS e ciência astrologia (BOA COMO QUALQUER OUTRA) diz-se na televisão E SERÁ VERDADE (se dizem na televisão) OLÁ olá portugal E SIC'ÀS DUAS POR (QUÊ) comenta o comentador A POLITIZAÇÃO É a globalização é DISTÂNCIA um distanciamento UMA VISÃO diário de PÚBLICO vasco não sei o quê MERDA vasco não sei o quê DIVÓRCIO um DIVÓRCIO dois UM E OUTRO é dois UMA CONJUNÇÃO uma conjugação DE MULHER com pénis COM HOMEM com pénis COM UMA MULHER snap snap PORNO o amor é PORNOGRÁFICO no quarto E TAMBÉM É carinhoso (COM CERTEZA COM CERTEZA) desculpe lá mas VEJA O FILME FAMILIAR as fotografias A MÁQUINA FOTOGRÁFICA ALI o olho atento O OLHO OPORTUNO o olho milimétrico E OS MILÍMETROS pequenos OS SEGUNDOS a fracção O DEDO MINDINHO DE TEMPO ALI mas pois claro HOJE sim E HOJE não AMANHÃ amanhã NUM TEMPO FUTURO não NÃO não SEJA RUÃO em ruanda NUM HOTEL com filhos de puta em volta do hotel ruanda A MATAR uma festa DE PUTAS E O VINHO verde E CEGUEIRA NOS COMENSAIS À VOLTA DO MORTO e mais que isto o MATADOR ALMODOVAR no alentejo NA PAISAGEM MORTA à volta AMARELA e à volta COMIGO comigo E CONTIGO e depois é preciso falar É O NOSSO DEVER apesar muito apesar DA ENXAQUECA e depois farmácia DO FARMACÊUTICO com preservativo gratuíto BONITO e preservativo caro FEIO preservatilvico É UM NEGÓCIO SABE um negócio enfim UM CHINÊS DA CHINA só que como os outros EM LISTA DE ESPERA imagino biliões de pessoas em lista de espera SHAKESPEARE A SER ou então a não ser OU SER MAS À ESPERA como todos os outros SHAKESPEARE A LER NO JORNAL AS ACTUALIDADES - a publicidade, esta publicidade

casualmente, hoje cruzei-me três vezes com a idea de restaurarmos a monarquia em portugal e, meio à força bruta como fica claro, ficou-me o pensamento. não é obviamente a primeira vez que penso no assunto; no entanto, hoje bateu-me com uma força inusitada. e tudo começou com o programa do alvim na antena 3, que oiço muitas vezes quando estou a preparar-me para escrever, e hoje o convidado era precisamente o d. duarte pio.

ele fez notar um detalhe curioso; sabiam que o rei de espanha custa 15 vezes menos ao estado do que o presidente da república? é óbvio que isto não será em termos absolutos; é de um valor por cabeça. mas mesmo assim, dá que pensar - a título de parêntesis, recordo que temos 900 anos de monarquia e 90 anos de república - mais semana menos semana.

quantas repúblicas do mesmo tipo que a nossa, semi-presidencialista, conhecemos por esse mundo fora? conhece-se algum exemplo de sucesso? a maioria dos sistemas europeus, não sei se já repararam, são monarquias constitucionais. bem sucedidas, por sinal, a todos os níveis. e cito alguns exemplos: suécia, dinamarca, noruega, holanda, bélgica, luxemburgo, inglaterra, espanha, canadá e nova zelândia (que aceitam como chefe de estado a rainha de inglaterra), espanha, japão, austrália - sim, depois também é preciso olhar para marrocos, para a jordânia, arábia-saudita, emirados árabes unidos e por aí fora, mas esses são monarquias absolutistas; não é bem aí que se centra esta possibilidade. a frança é um regime presidencialista, tal como os estados unidos americanos e a rússia - mas o nosso principal pavor, recordo, é que cavaco venha a transformar portugal na mesma coisa, não é? então que exemplos temos nós de repúblicas semi-presidencialistas? consigo lembrar-me apenas de três, sendo que duas delas são um enfim bem periclitante; refiro-me à alemanha, tudo muito bem, mas também à itália e à grécia. mas haverá mais com certeza.

um dos argumentos contra a restauração da monarquia que muito se ouve, por entre engasgos pois quase ninguém leva a ideia muito a sério, é a possibilidade de que o rei se transforme de repnte num soberano despótico, desenvolvendo à sua volta todo um sistema de compadrios, de condes e duquesas bem postos e cobertos de ouro, com o povo por debaixo a passar fome. quanto ao compadrio, não serão enfim necessárias muitas considerações, suponho eu, analisando um e outro sistema; duvido que um seja pior do que o outro. já quanto ao eventual despotismo do rei, estamos no século vinte e um, não é? essas coisas só já existem nos países árabes, em monarquias absolutistas onde poder e religião se confundem, mas também em áfrica e na américa latina em regimes presidencialistas. nem uns nem outros servirão propriamente de modelo.

é óbvio que uma monarquia moderna seria forçosamente constitucional, onde quem governa é o governo e o rei serve só para atravessar passadeiras vermelhas (leia-se representar o país em actos solenes), alimentar a cusquice de fotografias cor-de-rosas (embora o nosso país não seja dos mais cuscos) e pouco mais. Quanto ao nosso presidente, ressumbrado todo aquele paleio da magistratura de influência, servirá para mais do que isso?

também se afirma muito que pelo menos assim, com este sistema, qualquer um pode ser presidente. tudo bem - pelo menos em teoria. na prática, é preciso que uma pessoa se molde ao aparelho partidário mais vigoroso, que vá engolindo a consciência com muito vinho tinto e aceite compactuar com os barões do partido - o tal compadrio; e nenhum dos dois partidos maioritários está livre deste conceito, como sabemos. já quanto aos demais partidos, pcp, be, mrpp, cds, ppm, e por aí, também sabemos que não são mais do que paisagem no campo eleitoral. alguma vez um jerónimo de sousa tem hipóteses de se tornar presidente da república? ok; em teoria sim. levem lá o raio da bicicleta!

agora: por mais que alguns assegurem ser o presidente de todos os portugueses, na prática todos sabemos que não é bem assim. um presidente da república nunca consegue livrar-se do epíteto da cor política; ficará sempre conotado ao partido - que se coincidir com a cor do governo tudo muito bem, se não coincidir já tudo um bocadinho menos bem. dissolvem-se governos por dá cá aquela palha (eu, pessoalmente, sinto-me próximo do pensamento de esquerda; no entanto, considero que a dissolução do governo de santana lopes foi uma palhaçada bem grande, com todas as letras, um golpe fundamentado na maior baixeza política; e eu não votei santana lopes!), gastam-se umas boas centenas de milhares de euros de quatro em quatro anos. lembremos que o estado português contribui para a campanha de todos os candidatos que consigam reunir 5000 assinaturas (creio que são 5000) e sejam aprovados pelo tribunal constitucional; e tudo para que ascenda mais um belo corta fitas, a viajar pelo país e pelo mundo, exercendo paulatinamente a sua magistratura de influência - que na prática significa o quê? nada. absolutamente nada.

não consta que alguma vez um presidente tenha forçado um governo a decidir assim ou assado, nem que o governo alguma vez tenha ido atrás das ideias do presidente. tem poderes constitucionais, envia diplomas para o tribunal constitucional e assina a ida de tropas para o estrangeiro; mas acaso decide ele mesmo alguma coisa? quando muito ameaça fazer finca-pé; e poderá chamar a atenção para o que ele muito bem entender, mas no fim de contas, cada governo praticará a cegueira que mais lhe convier. daí que não se possa realmente falar de magistratura de influência, pois não? e na realidade, é completamente indiferente qual seja o próximo presidente da república; até podia ser o jerónimo de sousa, não fosse depois preciso administrar aspirinas ao país inteiro.

pergunto eu: terá sido mais caro o europeu de futebol, inimigo tão grato a tantos economistas de bancada, ou as últimas três campanhas eleitorais para presidente da república? e qual é que desenvolveu mais o país; o europeu ou as campanhas? em termos de economia, sempre podemos dizer que o europeu beneficiou os clubes de futebol e enfim os seus adeptos; já quanto às campanhas, servirá para limpar o pó de alguns pavilhões e para produzir aquela quantidade de lixo propagandístico que, no final, apenas serve para deitar fora ou reclicar.

um rei põe possibilidades distintas, na minha opinião; seria representante do país inteiro - até mesmo dos republicanos - pelo simples facto de não vir de nunhum quadrante político. seria apenas um símbolo; só que muito mais ostensivo (no bom sentido) e unificador do que qualquer presidente. representaria apenas a história e a personalidade do país; e seria, com certeza que sim, um elemento moralizador em determinadas alturas. ora nesta que atravessamos em particular, creio que um rei daria um jeitaço - mesmo até o d. duarte pio. e depois, uma monarquia é estética, tem um glamour diferente, e não tem nada a ver com o cinzentismo de um presidente da república portuguesa; não era porreiro que o nosso chefe de estado tivesse nada menos que dezassete nomes? imaginem bem a hipótese e depois digam se sim ou não.

outro argumento a favor, um muito grato a todos nós: o dinheiro. qualquer monarquia constitucional tem a sua própria fortuna e as suas próprias posses (uma constatação que também se aplica ao nosso d. duarte pio); isto remete para que se acabe com o despesismo cíclico das campanhas: já que não se pode acabar com o despesismo de todas elas, pelo menos acabe-se com o despesismo das presidencialistas. e se o d. duarte pio quisesse ir para as ilhas seishelles curtir umas férias, nós não pagávamos; ele que as pagasse do próprio bolso.

por último, rebatendo um contra que também já ouvi: então e se o ascendente ao trono for um banana, um toleirão, como parece ser o caso do príncipe carlos de inglaterra? ora bem: também para esta situação a monárquica constitucional se preveniu. em primeiro lugar, será muito difícil acontecer que o corta fitas não tenha jeito para cortar fitas; recordemos que não existem ingerências do rei na vida pública. margaret tatcher, em certa ocasião, mandou dizer à rainha de inglaterra que trate dos jantares reais e das recepções, que ela tratava do país. mas mesmo no caso de acharmos que o corta fitas não tem aptidões para a função, mesmo aí existe um mecanismo muito simples: a deposição do rei. então e se o herdeiro seguinte também for banana? passa-se ao neto, ao primo, ao sobrinho, etc. então e se nenhum tiver jeito para cortar fitas, nem mesmo depois da educação rigorosa a que são submetidos os desgraçados dos herdeiros? bem, em último caso, creio que se poderá voltar à república sem grande prejuízo. no fundo é só alterar a constituição e fazer mais uns arranjos. eu compreendo: somos avessos à mudança. mas nada mudava de maneira irreversível; o país não ia à falência, pois não?

todos clamamos pela necessidade de que alguma coisa mude efectivamente neste país; só que qualquer mudança de fundo tem que começar pela reforma do poder político, coisa que de governo em governo se adia. porque não começar então por aí mesmo, por trocar um presidente por um rei, ou pelo menos começar pela possibilidade de se efectuar um referendo e de se auscultar o país; nós vivemos em liberdade, sim senhor, porém a capacidade de decisão que cabe aos cidadão é deveras escassa. porque não posso eu pronunciar-me acerca desta possibilidade? porque é que a nossa constituição o proíbe tão determinantemente? acaso não terão os nossos políticos pavor de que realmente o país decida questões de fundo da vida pública? acaso não estarão os nossos políticos tão apegados aos seus tachinos e panelas, com maior ou menor rotatividade, que se tenha que manter todo e qualquer feudo? e acaso não infundirá um medo terrível a ideia em si, de tal forma que todos nos apressamos a encontrar pretextos para refutá-la, quando na verdade não se encontra nenhum?

falo por mim, é claro. as ideias não matam, meus amigos; as ideias são sempre bem vindas, e foi com o intuito de pôr uma ideia em cima da mesa que lancei texto a todas as caixas de correio que continha nos endereços. será oportunismo falar do assunto neste momento? é pois; é bradar a vontade clara de que alguma coisa mude, no momento exacto em que mais precisam de ser mudadas. quem concordar com o texto, abaixe assine na caixa de comentário; quem não concordar, "good night and good luck".


ARTE artista IMAGINA a imagem NOS CINEMAS o cinema O AUTOR o realizador O GUIONISTA o sonoplasta E O ESPECTADOR a espectadora NA SALA na saída É HOMEM é entrada E É MULHER e é meloso FOGOSO e incêndios É ESTÉTICA uma imagem UM PINTOR uma exposição que se vê de costas voltadas UM QUADRO uma electricidade UMA RELIGIÃO um pequeno NATAL um presidente da república PASSIONAL e uma MASSA atenta e uma MASSA desatenta E UMA MINORIA são diversas minorias ETNIAS de pretos e de BRANCOS e de verdes PAÍSES bandeiras HINOS e sentidos militares ARMADOS COM ARMAS pistolas CANHÕES metralhadoras TANQUES mulheres nuas no capacete POR DENTRO assalto (por dentro) MÃO ARMA E DENTE ou dentes OU DENTES e escrita E ESCRITOR e cuida dos teus dentes como se fossem a tua arma CONFLITO KAFKA um livro de escrita GESTO CRIATIVO ESPALMADO um livro COMPLETO e um livreiro do outro lado NA LIVRARIA na papelaria CANETAS NAS PRATELEIRAS DA PAPELARIA vício-vicio UMA PARTICULARIDADE INÓCUA e a actualidade é uma MERDA uma dispersão UM DESPERDÍCIO é lixo NA BOCA INTERNA DO CANTONEIRO na berma da estrada e da auto-estrada NO TRÁFEGO INTERNACIONAL e aeroporto E OTA e aeroportuário E OTÁRIO e mário PESCADOR NACIONAL uma coisinha bonita VERDURAS FRESCAS com árvores de ambos os lados da estrada NUM BRASIL REGIONAL (com z às vezes) UMA AMAZÓNIA INTEIRA florestal DENSA pesada UMA BÁSCULA basculante QUE BASCULA NA PEDREIRA com mármore por cima COM BETÃO POR CIMA com aço por E CIMENTO na betoneira máquina de lavar roupa dura DO PEDREIRO com mulheres nuas na boca HOMEM de mulheres mini FAMÍLIA NOS PÉS e ciência astrologia (BOA COMO QUALQUER OUTRA) diz-se na televisão E SERÁ VERDADE (se dizem na televisão) OLÁ olá portugal E SIC'ÀS DUAS POR (QUÊ) comenta o comentador A POLITIZAÇÃO É a globalização é DISTÂNCIA um distanciamento UMA VISÃO diário de PÚBLICO vasco não sei o quê MERDA vasco não sei o quê DIVÓRCIO um DIVÓRCIO dois UM E OUTRO é dois UMA CONJUNÇÃO uma conjugação DE MULHER com pénis COM HOMEM com pénis COM UMA MULHER snap snap PORNO o amor é PORNOGRÁFICO no quarto E TAMBÉM É carinhoso (COM CERTEZA COM CERTEZA) desculpe lá mas VEJA O FILME FAMILIAR as fotografias A MÁQUINA FOTOGRÁFICA ALI o olho atento O OLHO OPORTUNO o olho milimétrico E OS MILÍMETROS pequenos OS SEGUNDOS a fracção O DEDO MINDINHO DE TEMPO ALI mas pois claro HOJE sim E HOJE não AMANHÃ amanhã NUM TEMPO FUTURO não NÃO não SEJA RUÃO em ruanda NUM HOTEL com filhos de puta em volta do hotel ruanda A MATAR uma festa DE PUTAS E O VINHO verde E CEGUEIRA NOS COMENSAIS À VOLTA DO MORTO e mais que isto o MATADOR ALMODOVAR no alentejo NA PAISAGEM MORTA à volta AMARELA e à volta COMIGO comigo E CONTIGO e depois é preciso falar É O NOSSO DEVER apesar muito apesar DA ENXAQUECA e depois farmácia DO FARMACÊUTICO com preservativo gratuíto BONITO e preservativo caro FEIO preservatilvico É UM NEGÓCIO SABE um negócio enfim UM CHINÊS DA CHINA só que como os outros EM LISTA DE ESPERA imagino biliões de pessoas em lista de espera SHAKESPEARE A SER ou então a não ser OU SER MAS À ESPERA como todos os outros SHAKESPEARE A LER NO JORNAL AS ACTUALIDADES - a publicidade, esta publicidade
 
Sunday, January 15, 2006
  com a mesma coisa no pensamento
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«Uma criança perguntou O que é a erva? trazendo-ma nas suas mãos cheias;
Como poderia responder-lhe? eu não sei mais do que ela.

Talvez seja a bandeira da minha índole, de matéria verde tecida.

Ou talvez seja o lenço do Senhor,
Uma perfumada prenda, uma lembrança que intencionalmente cai,
Com o nome do seu dono num dos cantos, para que ao vê-lo perguntemos De quem é?

Ou talvez a própria erva seja uma criança, um filho da vegetação.

Ou talvez hieroglífico uniforme,
Algo que diz: por igual brotando em largos espaços e estreitos espaços,
Crescendo no meio de negros e de brancos,
Entre os Kanuck e os Tuckahoe, entre os congressistas e os negros, a todos dou o mesmo e de todos recebo o mesmo.

E agora parece-me ser a bela e intacta cabeleira dos túmulos.
Ternamente te usarei, anelada erva,
Talvez sejas a transpiração do peito dos jovens,
Talvez que se os conhecesse os tivesse amado,
Talvez venhas dos idosos, ou talvez da prole prematuramente arrancada ao regaço das mães,
E aqui és o regaço materno.

Esta erva é muito escura para vir das cabeças brancas das mães idosas,
Mais escuras que a barba descolorida dos anciãos,
Demasiado escura para brotar das rosadas raízes de uma boca.

Oh, sim, conheço tantas línguas,
E sei que não nascem em vão das raízes de uma boca.

Quem me dera traduzir as alusões aos rapazes e às raparigas mortos,
E as alusões aos velhos e às mães e à prole prematuramente arrancada aos seus regaços.

Que achas que aconteceu aos jovens e aos velhos?
E que achas que aconteceu às mulheres e às crianças?

Eles estão vivos e bem, algures,
O rebento mais pequeno prova que a morte não existe realmente,
E se alguma vez existiu deu lugar à vida e não está à espera de arrebatá-la,
E deixou de existir no momento em que surgiu vida.

Tudo cresce e avança, nada se detém,
E morrer é diferente do que se pensava, e mais afortunado.»


Walt Whitman, Canto de Mim Mesmo, Canto VI
(obra completa aqui)
 
Saturday, January 14, 2006
  algumas mortes

morte; giotto

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morte del batista; bellini giovanni

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Cadáver de Pasolinni

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cristo morto; andrea mantegna
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morte de marcello lonzi

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Paul Cèzanne, Nature morte au vase pique-fleurs
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O Día da Morte; Willian-Adolphe Bouguereau

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  o inverso da vida e o inverso da morte
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«os mortos depois ficam quietos, dizem; ficam plantados junto às raízes da erva. Há juncos em volta, lápide e algum arvoredo. porém, o que importa aqui são os vermes. os mortos regressam à sua imortalidade original.

pressupõe certo entendimento de biologia − sabes? − e certo entendimento de teologia, de escultura, de metafísica, de mecânica, de calculos com infinito e tudo ao mesmo tempo. tudo isto é aliás a mesma coisa; os mortos balanceando-se dos vivos e qualquer coisa por detrás, equidistante de uns e outros, impedindo que uns parem de transformar-se nos outros.

pelo meio, o tempo há-de amarelar todas as nossas fotografias − agora são digitais e duram mais tempo, mas vai dar ao mesmo. a lembrança não está feita para durar. não é possível que tenhamos lembranças dos mortos atrás de nós . e por isso, que faz o morto na cabeça da viúva? É simples: espera pelo esquecimento. o principal desejo do morto é que se esqueçam dele de uma vez, de maneira a libertar-se dos vivos para ser um raio de sol, a seiva de alguma orquídea, ou mesmo o junco nas imediações da sua própria tumba.

se calhar, ele torna-se qualquer coisa muito difícil de entender. Se calhar transforma-se num extraterrestre, mesmo que seja num daqueles do spielberg que se abeiram da minha sala.

ontem à noite vi um bando de putos a saltar os muros do cemitérios; comecei por ouvi-los conversar através da janela aberta, e depois fiquei a vê-los. traziam um medo fininho a borbulhar debaixo da voz, uma leve vibração (parecida ao tiritar do frio). era muito maior do que admitiam quando davam gritinhos ou começavam a rir.
havia uma rapariga que não queria ir com ele; mas eles puxaram a pequena pela manga do casaco e diziam-lhe

− os mortos peidam gases que se incendeiam − não queres ver?

o problema é que entretanto ladrou um cão ao longe. eu não consegui vê-lo, mas pela forma como o som se propagava, o cão aproximava-se em corrida. os adolescentes, é claro, largaram a correr e desapareceram no emaranhado urbano.

ninguém nasce capaz de ver a morte logo à primeira; por isso que incarna figuras postas no final do tempo quando já nada resta. morrer é heróico ou desastroso; morrer é sempre uma maçada e não será voltar a casa com os pés a doer e os ossos gelados. talvez voltar pelo caminho, mas desrodar a chave no trinco da porta e estar de novo em pijama, deitado na mesma cama onde ainda não se acordou.

talvez se regresse ao sono para que medre a contristada lembrança na cabeça de alguém; talvez seja um trofeu para o morto se os vivos que ficam para trás desatam aos gritos. no entanto

creio que uma coisa se inverte da outra e a angústia seja igual, tanto se o morto pensa na vida ou se o vivo pensa na morte. morrer será surpreendente, tal como surpreendente foi de repente ter dois anos de idade e pensar: tenho fome. não será o vivo com a seringa espetada na jugular; ele talvez se abrevie mas ainda assim não está morto. e muito menos morreu o que está sentado no sofá, dizendo-se a si mesmo:

- que faz a morte no meio do amor?

ninguém se lembra do amor enquanto perdura. onde está o restolhar da erva de quando nós nos escondíamos no bosque, com o trilo da rotina de certos pássaros que se assustavam se nos ouviam passar?

morte milhares de vezes na esqualidez dos dias mas isso é só dizer que não acontece nada; será o sono, o tédio; mas não acontecer nada pode lá ser o mesmo que a morte. a morte é uma granada a explodir nos arredores, uma rajada de G3 contra a parede, um andaime que se desfragmenta e um velho que já não acorda. tudo isto ao mesmo tempo. a morte é uma girândula de nós; um carnaval; e com certeza estrelas. muitas luzes.

se no final não se morresse, nem deus nem nada; nem sequer sairíamos da cama»
 
Friday, January 13, 2006
  O OFÍCIO
ARTE artista IMAGINA a imagem NOS CINEMAS o cinema O AUTOR o realizador O GUIONISTA o sonoplasta E O ESPECTADOR a espectadora NA SALA na saída É HOMEM é entrada E É MULHER e é meloso FOGOSO e incêndios É ESTÉTICA uma imagem UM PINTOR uma exposição que se vê de costas voltadas UM QUADRO uma electricidade UMA RELIGIÃO um pequeno NATAL um presidente da república PASSIONAL e uma MASSA atenta e uma MASSA desatenta E UMA MINORIA são diversas minorias ETNIAS de pretos e de BRANCOS e de verdes PAÍSES bandeiras HINOS e sentidos militares ARMADOS COM ARMAS pistolas CANHÕES metralhadoras TANQUES mulheres nuas no capacete POR DENTRO assalto (por dentro) MÃO ARMA E DENTE ou dentes OU DENTES e escrita E ESCRITOR e cuida dos teus dentes como se fossem a tua arma CONFLITO KAFKA um livro de escrita GESTO CRIATIVO ESPALMADO um livro COMPLETO e um livreiro do outro lado NA LIVRARIA na papelaria CANETAS NAS PRATELEIRAS DA PAPELARIA vício-vicio UMA PARTICULARIDADE INÓCUA e a actualidade é uma MERDA uma dispersão UM DESPERDÍCIO é lixo NA BOCA INTERNA DO CANTONEIRO na berma da estrada e da auto-estrada NO TRÁFEGO INTERNACIONAL e aeroporto E OTA e aeroportuário E OTÁRIO e mário PESCADOR NACIONAL uma coisinha bonita VERDURAS FRESCAS com árvores de ambos os lados da estrada NUM BRASIL REGIONAL (com z às vezes) UMA AMAZÓNIA INTEIRA florestal DENSA pesada UMA BÁSCULA basculante QUE BASCULA NA PEDREIRA com mármore por cima COM BETÃO POR CIMA com aço por E CIMENTO na betoneira máquina de lavar roupa dura DO PEDREIRO com mulheres nuas na boca HOMEM de mulheres mini FAMÍLIA NOS PÉS e ciência astrologia (BOA COMO QUALQUER OUTRA) diz-se na televisão E SERÁ VERDADE (se dizem na televisão) OLÁ olá portugal E SIC'ÀS DUAS POR (QUÊ) comenta o comentador A POLITIZAÇÃO É a globalização é DISTÂNCIA um distanciamento UMA VISÃO diário de PÚBLICO vasco não sei o quê MERDA vasco não sei o quê DIVÓRCIO um DIVÓRCIO dois UM E OUTRO é dois UMA CONJUNÇÃO uma conjugação DE MULHER com pénis COM HOMEM com pénis COM UMA MULHER snap snap PORNO o amor é PORNOGRÁFICO no quarto E TAMBÉM É carinhoso (COM CERTEZA COM CERTEZA) desculpe lá mas VEJA O FILME FAMILIAR as fotografias A MÁQUINA FOTOGRÁFICA ALI o olho atento O OLHO OPORTUNO o olho milimétrico E OS MILÍMETROS pequenos OS SEGUNDOS a fracção O DEDO MINDINHO DE TEMPO ALI mas pois claro HOJE sim E HOJE não AMANHÃ amanhã NUM TEMPO FUTURO não NÃO não SEJA RUÃO em ruanda NUM HOTEL com filhos de puta em volta do hotel ruanda A MATAR uma festa DE PUTAS E O VINHO verde E CEGUEIRA NOS COMENSAIS À VOLTA DO MORTO e mais que isto o MATADOR ALMODOVAR no alentejo NA PAISAGEM MORTA à volta AMARELA e à volta COMIGO comigo E CONTIGO e depois é preciso falar É O NOSSO DEVER apesar muito apesar DA ENXAQUECA e depois farmácia DO FARMACÊUTICO com preservativo gratuíto BONITO e preservativo caro FEIO preservatilvico É UM NEGÓCIO SABE um negócio enfim UM CHINÊS DA CHINA só que como os outros EM LISTA DE ESPERA imagino biliões de pessoas em lista de espera SHAKESPEARE A SER ou então a não ser OU SER MAS À ESPERA como todos os outros SHAKESPEARE A LER NO JORNAL AS ACTUALIDADES - a publicidade, esta publicidade


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o ofício da escrita é um ofício de natureza melindrosa e escorregadia, creio que isto é sabido. por mais que se tente impor uma rotina ao gesto criador, cumprindo horários de oito horas diárias, a obra pode de repente não concordar com o enquandramentos régua e esquadro que lhe impomos e então resvala. faz finca-pé.
aconteceu-me, por via de alguns acontecimentos e deslizes íntimos, perder subitamente a fé no romance que estava a escrever e foi o diabo; passou-se num momento em que o termino se ia aproximando; de um momento para o outro, um punhado de contradições narrativas deitava por terra o trabalho de quase dois meses de dez horas diárias à frente do computador.
perder a fé num trabalho é uma coisa terrível; é como se o chão que pisamos começasse a ondular e não conseguíssemos andar a direito. mas lá está: o ofício é melindroso. a propósito do que escrevi num post anterior, a obra é muitas vezes superior ao seu criador. a obra não nasce do encontro do macho com a fêmea, vem de um plano a qual temos acesso por vias muito transversais e difíceis de compreender. lembro-me de uma passagem de um livro de henry miller, plexus, onde se narra a história de picodiribibi, um autómato medieval. o seu criador fora um sábio e criara-o com o mero propósito de lhe fazer companhia nos seus passatempos. assim, ensinou-o a jogar xadrez, a ler e compor poesia, ensinou-lhe filosofia e a divagar matematicamente.
depressa picodiribibi, que não era afectado pelas fragilidades da vida, suplanta o seu mestre criador; torna-se um matemático muito mais hábil e imbatível nos rectos que o mestre lhe lança. a matemática vive exclusivamente do raciocínio puro, não se compadecendo de dispersões racionais ou outras. e no xadrez a mesma coisa: o mestre já não consegue derrotar o seu aprendiz. a princípio, isto não incomoda o mestre, pois nunca deixa de o considerar uma criação sua; porém, começa a notar que os convidados que costuma receber já não se interessam por ele. fixam toda a sua atenção em picodiribibi e é com ele que confraternizam, desleixando o mestre que o criara.
ao sábio, restam apenas os domínios da poesia e da filosofia, já que picodiribibi não consegue formular um raciocínio que se aplique à intimidade das pessoas; nem consegue mais do que combinações aleatórias de palavras, resultando em versos disparatados. mas o sábio já não é inteiramente sábio; uma parte de si morre no decorrer de todo este processo, e é-lhe agora insuportável passar para segundo plano. decide então matar picodiribibi, o que não é possível. picodiribibi pertence à humanidade, e por ser uma máquina é também imortal. acaba por encerrá-lo numa cave, completamente amordaçado, e parte pelo mundo, perdendo-se na multidão de vagabundos medievais; e de picodiribibi nada mais se sabe.
será portanto possível admitir que a vaidade do criador seja descendente da sua luta com a vida própria da obra e, com isto em mente, conseguiremos melhor condescender a ela? conseguiremos recordar-nos de milhares de exemplos que sustentem esta história; há diversos livros e filmes que nos marcam, e contudo não conseguimos recordar-nos do seu autor; lembramo-nos mais depressa do principezinho ou de saint-exupéry? de apocalipse now ou de coppola? da barreira invisível ou de terrence malick
um episódio curioso: trabalhei em tempos com harvey grossman, um encenador norte-americano que fora amigo de allan ginsberg; e claro, é obviamente impossível resistir ao impulso de passar serões inteiros com ele, com vinho tinto, queijo e lareira, a bebendo todas as histórias que consigamos extrair-lhe. eu, particularmente, sinto fascínio pela geração beatnik e portanto imaginais a dificuldade em conter aquele pueril e depois, e depois, e depois? harvey é uma pessoa adorável, deliciosa, genuína, e muitos mais adjectivos poderia gastar nele, não corresse o risco de me dispersar (noutro post falarei dele). ora num destes serões, harvey contou-me que jack kerouac tinha um hábito estranho: sempre que entrava num restaurante e percebia que as pessoas estava a olhar para ele, retorquia sim, sim, eu fui o tipo que escreveu on the road.
com isto, regresso pois à vida particular da obra, e ao ofício da escrita. comecei por dizer que, por via de achar contradições íntimas no que estava a escrever, perdi de repente a fé. e desmotivei de tal forma, que passei duas semanas parado, apenas juntando um sem-fim de papelinhos garatujados onde tentava encontrar uma nova coerência. nestas duas semanas, e até ao momento em que retomei a escrita, percebi que a obra tinha efectivamente uma vida própria. eu sei, e já o admiti anteriormente, que tenho certa tendência para mistificar as coisas; porém, eu tive a noção clara de que precisava recuperar a confiança que a obra tinha depositado em mim.
talvez aqueles que tenham o mesmo ofício que eu saibam do que estou a falar; e talvez eles mesmos tenham tido a sensação de que a obra fluía através dos dedos para o teclado, sendo essa a única contribuição nossa: a mecânica dos dedos, que permite que a obra fecunde o papel.
 
Thursday, January 12, 2006
 
hoje a coisa está um pouco torta, hei-de admitir.
 
  Encontrei...
ARTE artista IMAGINA a imagem NOS CINEMAS o cinema O AUTOR o realizador O GUIONISTA o sonoplasta E O ESPECTADOR a espectadora NA SALA na saída É HOMEM é entrada E É MULHER e é meloso FOGOSO e incêndios É ESTÉTICA uma imagem UM PINTOR uma exposição que se vê de costas voltadas UM QUADRO uma electricidade UMA RELIGIÃO um pequeno NATAL um presidente da república PASSIONAL e uma MASSA atenta e uma MASSA desatenta E UMA MINORIA são diversas minorias ETNIAS de pretos e de BRANCOS e de verdes PAÍSES bandeiras HINOS e sentidos militares ARMADOS COM ARMAS pistolas CANHÕES metralhadoras TANQUES mulheres nuas no capacete POR DENTRO assalto (por dentro) MÃO ARMA E DENTE ou dentes OU DENTES e escrita E ESCRITOR e cuida dos teus dentes como se fossem a tua arma CONFLITO KAFKA um livro de escrita GESTO CRIATIVO ESPALMADO um livro COMPLETO e um livreiro do outro lado NA LIVRARIA na papelaria CANETAS NAS PRATELEIRAS DA PAPELARIA vício-vicio UMA PARTICULARIDADE INÓCUA e a actualidade é uma MERDA uma dispersão UM DESPERDÍCIO é lixo NA BOCA INTERNA DO CANTONEIRO na berma da estrada e da auto-estrada NO TRÁFEGO INTERNACIONAL e aeroporto E OTA e aeroportuário E OTÁRIO e mário PESCADOR NACIONAL uma coisinha bonita VERDURAS FRESCAS com árvores de ambos os lados da estrada NUM BRASIL REGIONAL (com z às vezes) UMA AMAZÓNIA INTEIRA florestal DENSA pesada UMA BÁSCULA basculante QUE BASCULA NA PEDREIRA com mármore por cima COM BETÃO POR CIMA com aço por E CIMENTO na betoneira máquina de lavar roupa dura DO PEDREIRO com mulheres nuas na boca HOMEM de mulheres mini FAMÍLIA NOS PÉS e ciência astrologia (BOA COMO QUALQUER OUTRA) diz-se na televisão E SERÁ VERDADE (se dizem na televisão) OLÁ olá portugal E SIC'ÀS DUAS POR (QUÊ) comenta o comentador A POLITIZAÇÃO É a globalização é DISTÂNCIA um distanciamento UMA VISÃO diário de PÚBLICO vasco não sei o quê MERDA vasco não sei o quê DIVÓRCIO um DIVÓRCIO dois UM E OUTRO é dois UMA CONJUNÇÃO uma conjugação DE MULHER com pénis COM HOMEM com pénis COM UMA MULHER snap snap PORNO o amor é PORNOGRÁFICO no quarto E TAMBÉM É carinhoso (COM CERTEZA COM CERTEZA) desculpe lá mas VEJA O FILME FAMILIAR as fotografias A MÁQUINA FOTOGRÁFICA ALI o olho atento O OLHO OPORTUNO o olho milimétrico E OS MILÍMETROS pequenos OS SEGUNDOS a fracção O DEDO MINDINHO DE TEMPO ALI mas pois claro HOJE sim E HOJE não AMANHÃ amanhã NUM TEMPO FUTURO não NÃO não SEJA RUÃO em ruanda NUM HOTEL com filhos de puta em volta do hotel ruanda A MATAR uma festa DE PUTAS E O VINHO verde E CEGUEIRA NOS COMENSAIS À VOLTA DO MORTO e mais que isto o MATADOR ALMODOVAR no alentejo NA PAISAGEM MORTA à volta AMARELA e à volta COMIGO comigo E CONTIGO e depois é preciso falar É O NOSSO DEVER apesar muito apesar DA ENXAQUECA e depois farmácia DO FARMACÊUTICO com preservativo gratuíto BONITO e preservativo caro FEIO preservatilvico É UM NEGÓCIO SABE um negócio enfim UM CHINÊS DA CHINA só que como os outros EM LISTA DE ESPERA imagino biliões de pessoas em lista de espera SHAKESPEARE A SER ou então a não ser OU SER MAS À ESPERA como todos os outros SHAKESPEARE A LER NO JORNAL AS ACTUALIDADES - a publicidade, esta publicidade




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...um blog muito intenso; carnívoro e frágil ao mesmo tempo. para lá chegar, toca-se levemente com o dedo indicador em a mar te. é apenas bebível; sôfrego; e de vez em quando, transcende muito o que seja apenas a palavra seca do pragmatismo dos homens.

há desordem naquilo que lá se escreve, e isso parece-me sincero; há inquietação e afrontamento. Imagino que a acção inspiradora de alguns dos versos não seja de todo pacífica; no entanto, o final é o cavalo-vapor das horas amantes em campo aberto, impossível de enxergar em toda a sua plenitude. cada vez que o cavalo pára, para respirar ou para apascentar, a paz deposita-se debaixo dos seus cascos. ele estará contente por ser o que outros não são: um cavalo.

é bom quando nos deparamos com coisas assim, e apetecia-me aliás dizer coisinhas. acende-se uma esperança qualquer, muito difícil de explicar; não saberia dizer que esperança em realidade, no entanto ela acende-se. talvez tenha que ver com a solidão de determinados momentos; e penso na fragilidade do pequeno ser encoberto pela carne dos dias, com medo de sair. podemos optar pela cegueira e não entender as complexidades pequenas e grandes de estar vivo; podemos fingir que tudo se resume à necessidade da fala, de amigos, e de um saco de novidades de vez em quando para que tudo volte ao princípio e a memória possa empanturrar-se de experiências. e depois há coisas que só têm lugar por dentro do amor.

eu gostava de fazer-lhe uma boa referência mas não sei muito bem como. sempre achei difícil referir-me às palavras de outros escritores, guardo sempre a sensação, quando me afasto, de que cometi uma imprudência ou, pior ainda, uma injustiça. um artesão tem uma sensibilidade tão especial, e aproxima-se tanto daquilo que seja um êxtase divino de criação, que é possível que às vezes nem ele mesmo conheça a verdadeira magnitude da obra que está a criar. a obra torna-se então superior a ele, transcende-o, pois ele não tem mãos suficientes para a segurar. talvez isto possa criar um desfasamento que só possa corrigir-se com os anos, com o amadurecimento. mas se a obra é demasiada para o seu artesão, pensemos então que muito mais demasiada ela será para quem olha, para quem lê e para quem tenta chegar a ela, vindo de fora. com isto, pretendo apenas dizer que uma obra é incompleta às vezes; porém sensível. quando a criticamos demasiado verrinosamente, e às vezes basta uma palavra fora do sítio, podemos estar a fazer murchar uma coisa intimamente bela, quando deveríamos fazê-la maior e mais rediviva. entendo que tudo isto possa também querer dizer condescendência, o que é uma atitude muito feia.

talvez tenha alguma propensão para mistificar as coisas que me agradam; e talvez me emocione demasiado facilmente, é possível que sim. por outro lado, sempre pensei que toda a beleza é triste. não sei que nota te deram os críticos, lena. pensa que é preciso ser-se crítico no que concerne às artes como em tudo o resto; e se talvez um crítico te disse que isto se parece com aquilo, ou faz lembrar não sei o quê, ou que é excessivamente emotivo, ou outra bataquada do género, é só porque um crítico é como malraux dizia: só consegue julgar quem não consegue compreender. e claro: há coisas que um crítico não consegue compreender.

entrego-te em mão um verso do meu poema favorito: "era uma casa, como direi, absoluta/ um sentimento onde algumas pessoas morreriam"
 
Sunday, January 08, 2006
  um pequeno regresso








não, não vou cascar no mário mais uma vez. apenas fui ali roubar a fotografia, distorci-a para que pareça um bulldog, e dá vontade de escarnecer e de trocidar, eu sei, mas não vou fazer nada disso; vim aqui porque já não vinha há algum tempo. tinha saudades disto, claro; saudades de perder a noção do tempo, de correr meia tarde de blogosfera, desleixando muitas outras coisas; mas no fundo é preciso vir.

não tenho é muito mais do que isto para dizer. então porque é que escorre tanta palavrinha por aí abaixo, perguntarão os verrinosos mais atentos (obrigado pela palavra, bom selvagem). a pergunta tem a sua pertinência; a resposta para estas coisas é que é complicada, e eu...

repararam com certeza que, há dois posts atrás, admiti que estava com bloqueio criativo; disse o que tinha a dizer, pedi as minhas desculpas e voltei por onde tinha vindo. o que é que mudou? pois além de ser preciso vir, tenho a verborreia toda assanhada e o ego titilado.

isto é a indeslindável natureza de um tipo que, às vezes, detesta não ter uma coisa para dizer. muitas vezes não me importo; eu não gosto lá muito de falar. mas hoje estou como aquelas pessoas que falam horas e horas, postas apenas na vontade de dar à língua, e não há silêncio que me detenha. falo com os meus objectos, porque enfim, também sou um desses tontinhos; falo com o computador, ou com o mesmíssimo blog. E quando penso naqueles silêncios
perigosos, silêncios arame farpado que chegam para esgotar as conversas entre pessoas com fraca intimidade, parece que estou a pensar na aparição de fátima ou na invasão de nova iorque por marcianos.

isto é uma sandice? não: isto é uma incompreensível necessidade, parte de um sem-fim de outras, contempladas na nossa natureza. já que temos uma língua ligada à garganta que dá para isto, entre nós e as palavras, siga. mas não vou também abordar a nossa necessidade de falar.

mas vocês vão com certeza ficar a conhecer-me um pouco melhor. quando não tenho nada para dizer ou para contar, conto a história do meu nascimento. é absurdo, eu sei que sim; porém, não seria uma absurdidade maior se me desse para mostrar a barriga, dando palmadinhas para mostrar que bebo muita cerveja, ou para pôr-me aos saltos, num sábado à noite nas docas, imitando a euforia de uma macaca com o cio? dito isto, concordarão que é uma verdadeira alegria contar a história do meu nascimento; é até um excelente tema de conversa (enquanto outros não se perfilem, lá está). e sem mais delongas, escolhi um dia de muito calor para nascer, numa cidade chamada portalegre.

nasci à uma da tarde, se bem me lembro, no dia vinte e três de agosto - podem imaginar a torrina que se fazia sentir, quarenta e tantos graus arredondadamente. o meu tio, que acabou por ser também o meu padrinho, percorreu os setenta quilómetros que o separavam da maternidade num fiat 127, demorando quase duas horas. a minha avó seguia com ele no voluntarioso carrito; só posso imaginar a aflição da pobre mulher, que terá perguntado milhares de vezes ao meu tio se não podia ir mais depressa.

quase não havia, conforme se recordarão alguns, auto-estradas neste país, e muito menos no alentejo. o alentejo, nessa altura como agora, era a região mais pobre da europa - mas isso agora, segundo parece, vai ser solucionado pelo candidato a presidente da república que vencer; eu ouvi o que cada um trazia no seu saquinho tipo pai natal, cheio de exaltadas estratégias embrulhadas no frango assado do jantar à borla, e com certeza o alentejo vai ficar bem melhor! mas não nos desviemos do assunto.

a minha mãe já me empurrava desde as dez da manhã (lembram-se do filme o abc do amor, quando aparece um espermatozóide com cara de woody allen a dizer que tem medo de se lançar? imagino que os tormentos de qualquer um ao nascer sejam semelhante, vacilando se vai se não vai. pessoalmente não me lembro).

com o que acima referi, adivinha-se que o meu tio e a minha avó tenham acabado por perder o glorioso momento em que decidi finalmente atravessar o túnel, dando assim descanso à gritaria da mulher que me paria. tive pena de a ouvir tão afónica, e também da mão solidária, tão mal tratada, que o meu pai lhe emprestou, e então fiz-lhe a vontade.

consta que o meu tio ficou lavado em lágrimas quando o meu pai lhe disse que ia ser padrinho; e o meu primeiro comentário que fiz quando saí, manifestando uma evidente e precoce sabedoria que haveria de perdurar até hoje, foi buáááááááááá! toda a gente entenndeu a minha retórica, sem ismos para aqui e ismos para acolá.
e pronto. acabei por nascer e o mundo transformou-se num lugar muito mais bonito

 
Friday, December 30, 2005
  LIÇÕES DE WITTGENSTEIN
ARTE artista IMAGINA a imagem NOS CINEMAS o cinema O AUTOR o realizador O GUIONISTA o sonoplasta E O ESPECTADOR a espectadora NA SALA na saída É HOMEM é entrada E É MULHER e é meloso FOGOSO e incêndios É ESTÉTICA uma imagem UM PINTOR uma exposição que se vê de costas voltadas UM QUADRO uma electricidade UMA RELIGIÃO um pequeno NATAL um presidente da república PASSIONAL e uma MASSA atenta e uma MASSA desatenta E UMA MINORIA são diversas minorias ETNIAS de pretos e de BRANCOS e de verdes PAÍSES bandeiras HINOS e sentidos militares ARMADOS COM ARMAS pistolas CANHÕES metralhadoras TANQUES mulheres nuas no capacete POR DENTRO assalto (por dentro) MÃO ARMA E DENTE ou dentes OU DENTES e escrita E ESCRITOR e cuida dos teus dentes como se fossem a tua arma CONFLITO KAFKA um livro de escrita GESTO CRIATIVO ESPALMADO um livro COMPLETO e um livreiro do outro lado NA LIVRARIA na papelaria CANETAS NAS PRATELEIRAS DA PAPELARIA vício-vicio UMA PARTICULARIDADE INÓCUA e a actualidade é uma MERDA uma dispersão UM DESPERDÍCIO é lixo NA BOCA INTERNA DO CANTONEIRO na berma da estrada e da auto-estrada NO TRÁFEGO INTERNACIONAL e aeroporto E OTA e aeroportuário E OTÁRIO e mário PESCADOR NACIONAL uma coisinha bonita VERDURAS FRESCAS com árvores de ambos os lados da estrada NUM BRASIL REGIONAL (com z às vezes) UMA AMAZÓNIA INTEIRA florestal DENSA pesada UMA BÁSCULA basculante QUE BASCULA NA PEDREIRA com mármore por cima COM BETÃO POR CIMA com aço por E CIMENTO na betoneira máquina de lavar roupa dura DO PEDREIRO com mulheres nuas na boca HOMEM de mulheres mini FAMÍLIA NOS PÉS e ciência astrologia (BOA COMO QUALQUER OUTRA) diz-se na televisão E SERÁ VERDADE (se dizem na televisão) OLÁ olá portugal E SIC'ÀS DUAS POR (QUÊ) comenta o comentador A POLITIZAÇÃO É a globalização é DISTÂNCIA um distanciamento UMA VISÃO diário de PÚBLICO vasco não sei o quê MERDA vasco não sei o quê DIVÓRCIO um DIVÓRCIO dois UM E OUTRO é dois UMA CONJUNÇÃO uma conjugação DE MULHER com pénis COM HOMEM com pénis COM UMA MULHER snap snap PORNO o amor é PORNOGRÁFICO no quarto E TAMBÉM É carinhoso (COM CERTEZA COM CERTEZA) desculpe lá mas VEJA O FILME FAMILIAR as fotografias A MÁQUINA FOTOGRÁFICA ALI o olho atento O OLHO OPORTUNO o olho milimétrico E OS MILÍMETROS pequenos OS SEGUNDOS a fracção O DEDO MINDINHO DE TEMPO ALI mas pois claro HOJE sim E HOJE não AMANHÃ amanhã NUM TEMPO FUTURO não NÃO não SEJA RUÃO em ruanda NUM HOTEL com filhos de puta em volta do hotel ruanda A MATAR uma festa DE PUTAS E O VINHO verde E CEGUEIRA NOS COMENSAIS À VOLTA DO MORTO e mais que isto o MATADOR ALMODOVAR no alentejo NA PAISAGEM MORTA à volta AMARELA e à volta COMIGO comigo E CONTIGO e depois é preciso falar É O NOSSO DEVER apesar muito apesar DA ENXAQUECA e depois farmácia DO FARMACÊUTICO com preservativo gratuíto BONITO e preservativo caro FEIO preservatilvico É UM NEGÓCIO SABE um negócio enfim UM CHINÊS DA CHINA só que como os outros EM LISTA DE ESPERA imagino biliões de pessoas em lista de espera SHAKESPEARE A SER ou então a não ser OU SER MAS À ESPERA como todos os outros SHAKESPEARE A LER NO JORNAL AS ACTUALIDADES - a publicidade, esta publicidade



ARTE artista IMAGINA a imagem NOS CINEMAS o cinema O AUTOR o realizador O GUIONISTA o sonoplasta E O ESPECTADOR a espectadora NA SALA na saída É HOMEM é entrada E É MULHER e é meloso FOGOSO e incêndios É ESTÉTICA uma imagem UM PINTOR uma exposição que se vê de costas voltadas UM QUADRO uma electricidade UMA RELIGIÃO um pequeno NATAL um presidente da república PASSIONAL e uma MASSA atenta e uma MASSA desatenta E UMA MINORIA são diversas minorias ETNIAS de pretos e de BRANCOS e de verdes PAÍSES bandeiras HINOS e sentidos militares ARMADOS COM ARMAS pistolas CANHÕES metralhadoras TANQUES mulheres nuas no capacete POR DENTRO assalto (por dentro) MÃO ARMA E DENTE ou dentes OU DENTES e escrita E ESCRITOR e cuida dos teus dentes como se fossem a tua arma CONFLITO KAFKA um livro de escrita GESTO CRIATIVO ESPALMADO um livro COMPLETO e um livreiro do outro lado NA LIVRARIA na papelaria CANETAS NAS PRATELEIRAS DA PAPELARIA vício-vicio UMA PARTICULARIDADE INÓCUA e a actualidade é uma MERDA uma dispersão UM DESPERDÍCIO é lixo NA BOCA INTERNA DO CANTONEIRO na berma da estrada e da auto-estrada NO TRÁFEGO INTERNACIONAL e aeroporto E OTA e aeroportuário E OTÁRIO e mário PESCADOR NACIONAL uma coisinha bonita VERDURAS FRESCAS com árvores de ambos os lados da estrada NUM BRASIL REGIONAL (com z às vezes) UMA AMAZÓNIA INTEIRA florestal DENSA pesada UMA BÁSCULA basculante QUE BASCULA NA PEDREIRA com mármore por cima COM BETÃO POR CIMA com aço por E CIMENTO na betoneira máquina de lavar roupa dura DO PEDREIRO com mulheres nuas na boca HOMEM de mulheres mini FAMÍLIA NOS PÉS e ciência astrologia (BOA COMO QUALQUER OUTRA) diz-se na televisão E SERÁ VERDADE (se dizem na televisão) OLÁ olá portugal E SIC'ÀS DUAS POR (QUÊ) comenta o comentador A POLITIZAÇÃO É a globalização é DISTÂNCIA um distanciamento UMA VISÃO diário de PÚBLICO vasco não sei o quê MERDA vasco não sei o quê DIVÓRCIO um DIVÓRCIO dois UM E OUTRO é dois UMA CONJUNÇÃO uma conjugação DE MULHER com pénis COM HOMEM com pénis COM UMA MULHER snap snap PORNO o amor é PORNOGRÁFICO no quarto E TAMBÉM É carinhoso (COM CERTEZA COM CERTEZA) desculpe lá mas VEJA O FILME FAMILIAR as fotografias A MÁQUINA FOTOGRÁFICA ALI o olho atento O OLHO OPORTUNO o olho milimétrico E OS MILÍMETROS pequenos OS SEGUNDOS a fracção O DEDO MINDINHO DE TEMPO ALI mas pois claro HOJE sim E HOJE não AMANHÃ amanhã NUM TEMPO FUTURO não NÃO não SEJA RUÃO em ruanda NUM HOTEL com filhos de puta em volta do hotel ruanda A MATAR uma festa DE PUTAS E O VINHO verde E CEGUEIRA NOS COMENSAIS À VOLTA DO MORTO e mais que isto o MATADOR ALMODOVAR no alentejo NA PAISAGEM MORTA à volta AMARELA e à volta COMIGO comigo E CONTIGO e depois é preciso falar É O NOSSO DEVER apesar muito apesar DA ENXAQUECA e depois farmácia DO FARMACÊUTICO com preservativo gratuíto BONITO e preservativo caro FEIO preservatilvico É UM NEGÓCIO SABE um negócio enfim UM CHINÊS DA CHINA só que como os outros EM LISTA DE ESPERA imagino biliões de pessoas em lista de espera SHAKESPEARE A SER ou então a não ser OU SER MAS À ESPERA como todos os outros SHAKESPEARE A LER NO JORNAL AS ACTUALIDADES - a publicidade, esta publicidade
ALGUMAS NOTAS SOBRE LINGUAGEM:

Tudo o que pode ser pensado, também pode ser dito; os limites da linguagem são, portanto, os limites do pensamento, ao mesmo tempo que todos os problemas metafísicos decorrem da tentativa de dizer aquilo que não pode ser dito. Para resolver ou diluir esta problemática, é preciso estruturar a linguagem. Dividamos então as orações em 2 categorias: orações atómicas (elementares), e orações complexas.
Uma oração complexa forma-se a partir das atómicas, mediante a aplicação das regras da lógica de Russell (muito parecidas à lógica de Boule, aplicada na matemática e em circuitos electrónicos); e as orações atómicas empregam os primitivos da linguagem: os nomes e os predicados.
Este elemento atómico é o constituinte mais básico do mundo, sendo o mundo (todo) a totalidade dos factos, ou seja, das orações atómicas. Um exemplo de oração complexa seria: O Rei de França é Calvo. Esta oração, que parece simples, será no entanto formada por 3 orações atómicas, sendo elas: 1.existe um rei de França; 2.tudo o que é rei de frança é calvo; 3.só existe um rei de França. A combinação destas 3 orações atómicas resultará, portanto, da lógica de Russell, combinadas com o elemento aditivo "e".
Os elementos aditivos das orações complexas deverão torná-las "veri-funcionais", isto é: o valor-de-verdade das orações complexas depende sempre do valor-de-verdade das suas partes – a isto se chama Princípio da Extensionalidadde.
Uma linguagem lógica deverá ser transparente aos valores-de-verdade. Toda a operação construtiva se perceberá em termos das transformações da verdade e da falsidade. Por exemplo: o NÃO transformará em falso o que é verdadeiro, e vice-versa; o SE fará depender a veracidade do segundo termo da oração, da veracidade do primeiro.
Assim, numa linguagem veri-funcional, as condições-de-verdade da oração complexa serão extraídas das condições-de-verdade das orações elementares. Se compreendermos as condições-de-verdade dos elementos, então compreenderemos o todo. E uma oração será uma verdade lógica se, ao substituí-la pelas suas partes, sendo estas verdadeiras, ela resultar também verdadeira; e a parte, ou seja: um elemento atómico, não admitirá qualquer definição precedente.
Um paradigma de verdade lógica será a TAUTOLOGIA “veri-funcional”. Ponhamos também como exemplo a expressão “P ou Q”. Pela definição de OU, “P ou Q” será falso apenas se ambos forem falsos; e pela definição de NÃO, a expressão NÃO-P será verdadeira apenas se P for falso (e de aqui se extrai que a expressão “P ou NÃO-P” é sempre verdadeira, qualquer que seja)
Por fim, a questão da teoria de verdade lógica terá como consequência o facto de as verdades elementares serem vazias. Elas nada dirão, uma vez que também excluem; elas serão compatíveis com todo o estado de coisas. E poderão ser sempre verdadeiras, como poderão também ser sempre falsas, já que nada na sua estrutura nos diz do seu valor-de-verdade. O mundo (ou seja o todo) será a totalidade destas verdades atómicas.
Em suma: as orações atómicas descrevem o real; no “espaço lógico”, os factos existentes definem possibilidades; as tautologias serão propriedades do próprio espaço lógico.


DE AQUI ADVÉM A ILUSÃO DA PRIMEIRA PESSOA:

1.Tenho mais certezas dos meus estados mentais que dos teus;

2. Eu observo directamente os meus estados mentais, enquanto apenas observo indirectamente os teus;

3. Eu posso ver-te sentir dor; posso ver o teu comportamento físico, reconhecer os esgares no teu rosto, posso até compreender as causas que te provocam dor ou mesmo determinar os estados complexos do teu organismo; no entanto, isto nunca será a dor que tu sentes. Será apenas a expressão contingente dela.

4.A dor oculta-se na sua expressão; só pode ser observada directamente por quem a sente.


E EM SUMA, SOLIPSISMO

No passado, no séc. XVII, o Solipsismo atingiu patamares espectaculares; uma vez que afirma que o conhecimento não é possível para além da experiência pessoal de cada pessoa, afirmou-se que tudo está no domínio da percepção. O amigo poderá não existir sequer como nós o vemos, pois somos nós quem recria o amigo, segundo a nossa percepção. O solipsismo dormiu durante dois séculos e qualquer coisa, até Wittgenstein o ter despertado, a partir das suas inferências lógicas. Uma célebre deixa é a da mosca no interior de uma redoma, dando marradas contra o vidro e não conseguindo sair. Porém, Wittgenstein afirma que é preciso ensinar a mosca a sair da redoma; lá chegaremos…
 
Tuesday, December 27, 2005
  BLOQUEIO


Hoje não consigo escrever; já ontem também não consegui, e começo a assustar-me. Um vendaval de universo a ruir perpassa-me a cabeça, deixa uma enxaqueça. As palavras guincham se as ponho no sítio, e apresso-me as rasurá-las para que calar o guincho; é pior do que morder um troço de lã da minha camisola grossa. É o inverno no meu quintal.
Doem-me os pulmões e a cabeça, o que serão ainda réstias da convalescença pós-natalícia; e se sento diante do computador, doem-me os pulmões e a cabeça. Apenas isso. Hoje não é um bom dia para existir.
 
o meu esconso variável é este. vivo dentro de contornos de adolescência e sou uma experiência às escondidas. sou um raciocínio. sou um assassinato de carácter.

Name: e. c.
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